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Valeu, brôu!

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Por Cristina Ustárroz*

Minha memória para comercial de televisão é do tamanho do buraco de uma agulha, mas um em particular chamou minha atenção de maneira surpreendente no verão. Nele, a mãe repreende o filho pelo baixo rendimento na escola de surf e pondera que, desse jeito, ele não irá para o Havaí e que, pior, acabará trabalhando em um escritório, engravatado e de frente para um computador – fique frio, isso não tem nada a ver com você. No fim do comercial, ela encoraja o rapaz a dedicar-se um pouco mais e, para motivá-lo, apresenta uma prancha novinha em folha e uma professora particular linda e loira. Boa sacada, não?

Não é à toa que essa mãe associou escritório com gravata e computador. Provavelmente acrescentaria terno e, talvez, um bom corte de cabelo. Afinal, esse é o visual típico de quem trabalha em escritório, ao contrário de quem surfa, cercado de praias maravilhosas com ondas gigantes, corpos sarados e bronzeados, coqueiros à beira-mar… Tudo muuuuuuito refrescante! É! Pelo jeito, a praia está ganhando de dez a zero. Só que não!

Via Amazing Arts

A verdade é que, quando falamos em futuro promissor, pensamos nas profissões clássicas, em empreendedorismo e competição. Eu disse competição? Perdão! Eu quis dizer competitividade! Enfim, essas coisas que o nosso preconceito nos impede de associar ao sol, à areia dourada e ao picolé – se bem que areia demais nunca é legal. Também pensamos em, obviamente, dinheiro. Muuuuuuito dinheiro! Sei não, mas parece que aqui a felicidade está perdendo feio! De qualquer modo, você sabe o que acompanha cada um desses estilos de vida? A língua. Ou melhor, a linguagem.

Para você não viajar na batatinha, explico: língua é o idioma, o conjunto de regras que aprendemos na escola. Por exemplo, o português só é entendido por quem fala ou estuda português. O mesmo vale para o inglês, francês, espanhol… A língua é apenas uma parte da linguagem. Já a linguagem é a capacidade de nos expressarmos, com palavras ou não. A língua pertence a uma determinada região; a linguagem é universal. A língua é concreta; a linguagem é abstrata. A língua vem de fora para dentro; a linguagem vem de dentro para fora. Todo mundo entende um sorriso ou um olhar 43 – menos você, lógico, que nasceu depois da década de 80 e nunca ouviu falar no RPM.

Há vários tipos de linguagem: formal, informal, verbal, corporal, digital, regional, tribal, coisa e tal… Enfim, pense na linguagem como uma roupa que usamos dependendo de onde e com quem estamos. Long John e havaianas? Bora pra praia! Se a língua denuncia nosso país de origem, a linguagem revela nossa visão de mundo, acusa nosso jeito de viver. Em cada linguagem transitam palavras ou expressões diferentes, pois grupos sociais diferentes comandam linguagens diferentes. A linguagem não faz de nós o que somos: ela reflete o que somos! Surfistas, por exemplo!

Vamos supor que eu queira conhecer você melhor. Sei lá, saber que tipo de pessoa você é, que linguagem você usa. Uma maneira viável de conseguir isso seria através de um questionário. Qual seu refri favorito? Com que frequência você vai ao super? Você anda de bici? Que tipo de político você mais odeia: reaça ou salafra? (sinto muito, mas neste país não existe outro tipo). Quando foi a última vez que bateu aquela nóia? E a neura? O que você faz quando está deprê? Quando é seu niver? Em que você pensa quando coloca a cabeça no travis?

Enquanto você responde, a ficha cai. E bem no meu pé. Através dessas perguntas não sou eu quem está conhecendo você: é você quem está me sacando, você é quem está imaginando onde eu quero chegar com todas essas palavras que não por acaso foram privadas de algumas sílabas. Elas estão deliberadamente abreviadas. Propositadamente diminuídas. Perderam sua cara metade, mas, valentes que são, cumprem integralmente a sua finalidade. Todo mundo sabe que refri não é a versão curtinha de refrigerador. E que travis não é a versão curtinha de travesti!

Acontece que para atender a uma necessida de linguística coletiva, ou por preguiça mesmo, às vezes encurtamos palavras sem comprometer a compreensão de seus significados. E ainda por cima, damos a elas um toque mais livre, leve e solto – que mara! É como se estivéssemos vestindo uma palavra velha com uma roupa nova: o conteúdo permanece inalterado mas o visual diferente produz um efeito moderno, confere um status social distinto, gera uma repaginação. E não se trata de qualquer roupa: trata-se de menos roupa.

No entanto, por que encolhemos bijuteria (biju) e não fizemos o mesmo com danceteria? Porque trata-se de um processo aleatório. Porque dizemos flagra(de flagrante) e liberamos brilhante? E petulante? E navegante? Porque além de aleatório, esse é um processo arbitrário – você já ouviu alguém dizer petu ou navê? E porque dizemos mamis e papis se não estamos subtraindo nem uma letra sequer de mamãe e papai? Porque além de aleatório e arbitrário, esse processo é assistemático. Como nós! Só sei que esse encurtamento tem até nome, nada curto, por sinal: forma truncada. Mas é mais conhecido por gíria! Aêêêê!

Truncada ou não, essa forma também está – surpresa! – presente no inglês. E é muito fashion! Além de muito jovem! Quer ver? Vamos lá, se você estiver em um restaurante e quiser impressionar três executivos estrangeiros, clientes seus, diga que adora veggies (de vegetables = verduras) e que não come carbs (de carbohydrates = carboidratos). Entre uma ceva e outra, você também pode mencionar que pretende tornar-se vegan (de veganism = vegano) e que malha diariamente para manter o abs rasgado (de abdominal muscles = músculos abdominais). O que você mais quer na vida é um hot new bod (de body = corpo caliente). Decididamente não quer acabar como seu primo que voltou da rehab (reabilitação). Antes fosse de um spa. Seus clientes trocam olhares. Nesse momento, um deles pede licença, levanta-se e vai embora. É quando você diz whatev (de whatever = que seja/tanto faz)!

Daí, você pode dizer que, durante a facul nos States, pertenceu a uma frat (de fraternity house = agremiação estudantil), que é fã dos FabFour (de fabulous = fabuloso), que seu músico fave (de favorite = favorita) é Jack Johnson e que sua fam (de family = família) é bem natureba. Conte que seu big bro (de brother = irmão mais velho) é doc (de doctor = médico), que sua little sis (de sister = irmã caçula) trabalha num lab (de laboratory = laboratório) e não tem hubbie (de husband = marido). Sua mom e seu dad (de mother and father = mãe e pai) viajam pra caramba. Nesse momento, o segundo cliente pede licença, levanta-se e vai embora. É quando você pensa whatev!

Via Flickr

Você começa a ficar nervoso e a suar frio, mas acha que deve continuar falando. Então, decide mudar de assunto e começa a falar sobre seus hobbies. Não, não hobbits! Hobbies! Diga que adora cinema, mas que não curte especular a vida das celebs (de celebrities = celebridades). Diga que você tem muitas pics (de pictures = fotos) de suas viagens, mora em um apê super comfy (de comfortable = confortável) e com uma boa vibe (de vibration = vibração/energia). De repente, passa um mulherão na sua frente, você desvia a atenção de seu único cliente e exclama hottie (de hot = gostosa/sexy)! Quer a versão feminina? Diga yummy!

Sinto muito, véio, mas depois desse discurso todo, o terceiro estrangeiro já se levantou da mesa, se despediu e desejou Merry Xmas (de Christmas = Natal) – mesmo que nem tenhamos festejado a Páscoa. Pois é! Entrou areia! Você se pergunta o que deu errado. É que, lá em cima, eu disse executivos estrangeiros e nenhum executivo, muito menos estrangeiro, vai curtir essa linguagem que, apesar de autêntica, correta e, vá lá, legit, não é a linguagem das finanças e dos negócios. Enfim, não é a praia deles. Nem Jack Johnson pode mudar isso.

Moral da história: você até pode mostrar que fala inglês muito bem ou que, pelo menos, possui familiaridade com uma linguagem mais informal. Mas se não adequar a linguagem ao lugar e ao grupo social, você ficará no preju. No mínimo, de saia justa! De nada adianta usar palavras corretamente se o contexto estiver errado. É aí que o certo pode ser errado. Mais especificamente, inadequado. É como ir a um jantar formal usando pijama de ursinho! Quem sabe se seus clientes fossem surfistas, numa praia ensolarada do Havaí… É, merrmão! De qualquer outro jeito, vai entrar areia! E isso todo mundo entende! Whatev!

Notas altamente esclarecedoras
Brôu (de brother), na gíria brasileira, significa “mano”, “camarada”, “colega”.
• O comercial mencionado faz parte da campanha “Pode ser Pepsi”.
Viajar na batatinha significa “não entender nada”.
• A expressão olhar 43 originou-se com a música de mesmo nome da banda RPM no fim da década de 80 e significa “olhar apaixonado”.
Long John: roupa de borracha para a prática do surf.
Super (de supermercado) é um encurtamento típico do RS.
• Há vários tipos de vegetarianismo, cada qual com sua denominação e classificação. Vegano é o vegetariano que exclui de sua dieta todo e qualquer alimento de origem animal.
• Os Beatles ganharam o apelido Fab Four (os Quatro Fabulosos) à medida que a Beatlemania crescia na Grã-Bretanha.
Natureba: gíria relativa à alimentação natural e ao naturismo.
Legit, de legitimate, significa “legítimo”, “autêntico” ou “genuíno”, mas também significa “maneiro” ou “interessante”.
Merrmão significa “meu irmão”. Valeu, brôu?

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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