Reflexões

Um mundo sem passado

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Quem disse que o melhor parceiro para um filme é a pipoca? Aqui no BlogA, a gente acredita que cinema combina mesmo é com livro. Na seção Leia & Assista, publicamos dicas de cinema e de leitura para você aproveitar o final de semana.

A sinopse de O Doador de Memórias pode parecer quase um lugar comum: em uma sociedade futurista, as emoções são apagadas em nome da ordem, do controle, da paz e da civilidade. Devido a injeções diárias, todas as pessoas que habitam “a comunidade” são privadas de suas emoções mais profundas e vivem conforme as regras estabelecidas pelos anciãos, um grupo de homens e mulheres mais velhos que tomam todas as decisões relacionadas à vida em sociedade.


Jonas é um dos únicos que enxerga o mundo colorido
[FONTE: The Suffolk Voice

A vida é relativamente fácil: desde o nascimento, todos os passos de um indivíduo estão planejados. Aos nove anos de idade, todos ganham uma bicicleta. Aos dezoito, os anciãos determinam para cada jovem uma carreira profissional. Não há questionamentos, angústias e muito menos o peso da dúvida ou da decisão. Basta seguir o roteiro e a harmonia se mantém. As únicas pessoas nesse mundo quase perfeito que têm noção do quanto a natureza humana está sendo reduzida nesse contexto são os que possuem uma memória coletiva da civilização. No caso, temos o doador de memórias, um ancião vivido por Jeff Bridges, e o receptor de memórias, nosso jovem protagonista Jonas, interpretado por Brenton Thwaites. O primeiro detém as lembranças do mundo, o segundo está em treinamento para recebê-las e armazená-las em sua cabeça, utilizando-as apenas quando os anciãos precisam de conselhos na resolução de problemas novos.

Desde criança, Jonas desconfiara ser diferente dos outros, mas jamais tivera coragem de dizer que, em um mundo no qual todos enxergam em preto e branco, ele enxergava cores e sentia emoções mais delicadas do que os outros, como o medo. Apenas quando conhece o doador, Jonas passa a compreender que, com o intuito de evitar sentimentos negativos como ódio, inveja e egoísmo, toda a sociedade era castrada em seu mais íntimo e vivia aos moldes de uma lógica fria e robótica.

O roteiro nasce do conflito que Jonas enfrenta ao pesar as duas realidades em que vive. Do lado de cá, uma comunidade pacífica e igualitária, mas sem calor humano, nem amor ou alegria. Nas memórias do passado, o mundo que conhecemos, cheio de amor, ódio, generosidade, desprezo, guerras, famílias e perdas. Por circunstâncias pouco explicadas no filme, o jovem tem uma escolha que beira o sobrenatural. Caso ele se aventure em território desconhecido e alcance um determinado ponto na “fronteira da memória”, todas as lembranças da história humana voltarão às mentes e corações de seus compatriotas. Como num passe de mágica, ou por algum mecanismo que, na transição do livro escrito por Lois Lowry para o roteiro, acabou ficando de fora da adaptação.


Jeff Bridges é o doador de memórias assombrado por suas próprias lembranças
[FONTE: Wallpaper series

O longa de Phillip Noyce tem falhas inegáveis, sobretudo nesses furos de roteiro que permeiam a trama. Ainda assim, a história é envolvente, os atores cumprem bem seu papel e a direção de arte é impecável em seu objetivo de emocionar a plateia. Ao mesmo tempo em que Jonas desperta emoções em Fiona, a menina que ele aprende a amar, o filme amolece os corações dos espectadores, com cenas de grandes vitórias históricas, trilha sonora inspiradora e discursos comoventes do doador.

O Doador de Memórias não é um filme para mudar sua vida, mas vai facilmente mudar sua semana. Depois de acompanhar a saga apaixonada de Jonas, é impossível não sentir vontade de colocar um pouco mais de cor e sabor na vida cotidiana. Em apenas uma hora e meia, a história torna evidente a essencialidade da emoção e da memória na construção social e cultural do que significa ser humano. Animais racionais, talvez, mas com força e mistério que não podem ser deixados de lado. O que o doador tenta dizer desde o princípio é que nunca teremos o nosso melhor se não formos capazes de abraçar e controlar o nosso pior.

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