Sobre livros

Teorema da existência sem propósito

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Quem disse que o melhor parceiro para um filme é a pipoca? Aqui no BlogA, a gente acredita que cinema combina mesmo é com livro. Na seção Leia & Assista, publicamos dicas de cinema e de leitura para você aproveitar o final de semana.

O diretor Terry Gilliam já nos brindou com obras primas brilhantes, esquisitas e futuristas (vide Os 12 Macacos, Brazil, o Filme e O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus), então não é de surpreender que ele nos traga agora um história de ficção científica que retrata uma distopia repleta de aparatos tecnológicos, analogias religiosas e muita solidão.

Em O Teorema Zero, acompanhamos alguns meses da vida de Qohen Leth, um especialista em arquitetura de informações que trabalha para a grande corporação Mancom, cujo lema é “dar sentido às coisas boas da vida”. Em um mundo caótico onde quase todas as interações humanas são mediadas por máquinas, o único desejo de Qohen é trabalhar em casa: assim, ele não precisaria mais enfrentar as ruas e estaria sempre disponível para receber um misterioso telefonema que espera há anos.

A seus superiores, Qohen justifica seu pedido de reclusão com um argumento bastante impactante, embora pouco convincente: “nós estamos morrendo”, ele diz. E isso não se refere a todos os personagens, mas a ele. Qohen fala sempre na terceira pessoa do plural por motivos que nós (os espectadores) não podemos compreender. Embora os médicos da corporação mandem-no de volta ao trabalho, já que sua saúde está em ordem, o funcionário finalmente consegue ter seu desejo realizado quando lhe é atribuída uma tarefa em um projeto especial da chefia, o tal do Teorema Zero.

Trancafiado e vigiado em sua casa, Qohen passa os dias na frente do computador resolvendo equações de “entidades” que se transformam conforme o cálculo avança, e o resultado final fica sempre mais distante. O tempo passa, o gênio da computação se aproxima da loucura e seu único interesse na vida continua sendo a espera pelo tal telefonema. Em seu socorro – ou seria por interesses da empresa? – aparecem seu gerente, uma psiquiatra, o filho do dono da companhia e uma sedutora mulher.


O futuro meio brega meio retrô
[FONTE: Divulgação]

A trama é engenhosa, inteligente e complexa. Qohen está procurando nada menos que o sentido da vida, uma busca com a qual a maioria dos seres humanos consegue se identificar. Ainda assim, o filme não chega a ser envolvente: é puro cérebro e pouca emoção. Pode muito bem ser o objetivo do diretor, afinal, a pergunta é séria e ele não está aqui para brincadeiras. A abordagem racional do filme não deixa de ser irônica, já que Gilliam também codirigiu, 31 anos atrás, o filme O Sentido da Vida, do grupo humorístico britânico Monty Python. Parece que as piadas não serviram de resposta e Gilliam partiu para uma busca melancólica, solitária e pessimista (ainda que Qohen tenha seus dois ou três momentos de riso).


Umas das poucas e traumáticas interações do protagonista
[FONTE: Divulgação]

Em entrevista, o diretor disse que “hoje em dia, parece que só existimos quando tuitamos, telefonamos para alguém, postamos uma foto ou um comentário nas redes sociais. Somos como neurônios de um grande sistema nervoso, ligados por sinapses aos outros neurônios”. Esse grande sistema nervoso ou inteligência coletiva também é tema do filme, mas não poderemos falar muito sobre isso sem estragar as surpresas. O importante é dizer que O Teorema Zero é um filme intelectual, pós-moderno, crítico e diferente de quase tudo o que estamos acostumados a ver no cinema.

Prepare-se desde já para terminar a experiência com mais perguntas que respostas. A arte costuma servir mesmo para nos inquietar. Por sorte, contamos com a ciência para nos esclarecer alguns dos mistérios da vida (nunca todos). O livro Odisseia do desenvolvimento humano é a primeira obra a abordar nossa fascinante viagem física, psicológica e espiritual pela vida. Para isso, o livro traz materiais de uma ampla gama de disciplinas, incluindo neuropsicologia, antropologia, biologia evolutiva, psiquiatria, folclore, sociologia, religião e literatura. Ao contrário de um filme, não dá para absorver tudo em duas horas, mas você vai entender um pouco mais da natureza humana.

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