Reflexões

Saneamento básico: um privilégio

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A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou, em 2013, que o dia 19 de novembro passaria a ser considerado o Dia Mundial do Banheiro. O nome é curioso, mas a temática é séria: a ONU estima que cerca de 2,5 bilhões de pessoas vivam sem condições sanitárias adequadas, o que pode ocasionar as mais diversas enfermidades. Para celebrar a data, a ONG Water & Sanitation for the Urban Poor (Água e Saneamento para os Pobres Urbanos, WSUP na sigla em inglês), em parceria com os fotógrafos da Panos Pictures, inaugurou, em Londres, a exposição fotográfica My Toilet (Meu Banheiro), retratando a realidade de mulheres ao redor do mundo no que diz respeito ao saneamento básico.

A escolha de contar essa história por meio de imagens é plenamente justificada. A força da narrativa fotográfica em questão faz com que, mesmo as legendas sendo apenas descritivas, possamos compreender o subtexto de imediato: a desigualdade social existe e o que para uns é mera rotina, para outros, é artigo de luxo. Ademais, a opção por usar mulheres como protagonistas nos lembra que as péssimas condições de higiene e segurança podem as tornar especialmente vulneráveis à violência de gênero. 


Em Bangladesh, Sukurbanu utiliza esse banheiro comunitário suspenso (do qual já sofreu quedas) e acredita que as frequentes doenças que enfrenta são oriundas da falta de higiene do local. 
[Fonte das imagens: Panos Pictures]


Na Etiópia, Masaret optou por utilizar, por segurança, o pátio da casa que divide com mãe, irmã e dois filhos como banheiro após se tornar viúva, pois o banheiro comunitário é longe de sua residência.


Martine, do Haiti, tem como sanitário um buraco no chão ao lado de sua casa, o qual só utiliza à noite para conseguir alguma privacidade. Durante o dia, precisa se dirigir ao banheiro comunitário. 


Mary, de Nova York, divide o apartamento (e o toalete) com outras duas pessoas, mas valoriza demais essa privacidade, pois precisou usar banheiro comunitário quando vivia em Pequim. 


A brasileira Isabela vive sozinha em uma cobertura do Rio de Janeiro e reconhece o privilégio que é poder desperdiçar 10 min de água corrente todos os dias. 

No livro A Narrativa Fotográfica, Michael Freeman fala sobre contar histórias por meio do ensaio fotográfico e a necessidade de uma escolha cuidadosa não apenas das imagens, mas também da ordem em que elas são expostas. Se tivéssemos visto o banheiro brasileiro antes das outras fotos, talvez o impacto não fosse tão grande e não refletíssemos tanto sobre o privilégio que é termos vaso sanitário e chuveiro com água corrente dentro de nossas casas. O fato é que não estamos tão distantes da triste realidade da falta de saneamento. Em seu livro mais recente, Freeman ressalta, ainda, que o ensaio fotográfico é capaz de contar toda uma história sem utilizar palavras. O incrível contraste entre as imagens dessas mulheres é capaz de causar impacto e nos mostrar: há algo errado. Em um mundo com equilíbrio social, essas fotografias seriam mais semelhantes. Por fim, na obra, o autor utiliza um capítulo para falar da interação entre imagens e palavras. Sem dúvida, nesse ensaio, ambas se completam. Enquanto as palavras trazem informações relevantes sobre o contexto, as imagens trazem a força emocional do tema. Posicionar essas mulheres diante de seu maior desafio ou pequena vitória rotineiros – o simples ato de ir ao banheiro – proporcionam um choque de realidade para o espectador. 


No Equador, Fabíola passou a infância utilizando banheiros comunitários e, hoje, se orgulha de possuir um apartamento com cinco deles.


Na Índia, Sangita passou a vida utilizando os campos de cultivo como sanitário (do que se envergonhava) e, quando se mudou para Nova Déhli, fez questão de construir seu próprio banheiro em casa.


No Japão, Eiko gosta de frequentar o banheiro da loja de departamentos próximo à sua casa para relaxar, pois ele em nada lembra os banheiros públicos sujos e mal cheirosos que utilizava na infância. 


No Quênia, Eunice e seu marido construíram banheiros pequeninos na escola em que trabalham para que apenas as crianças entrassem neles, pois, com a sujeira dos adultos, os pequenos preferiam utilizar o chão. 


Flora, de Moçambique, usa esse banheiro comunitário e o odeia, pois os homens costumam espiar as mulheres através da cerca. 


Susan é fundadora de uma escola para crianças com deficiência na Zâmbia e tem dificuldades de usar o banheiro, especialmente na época de chuvas, devido à sua deficiência, que a faz necessitar das mãos para andar. 

De acordo com a ONU, apenas no Brasil, são cerca de 114 milhões de pessoas sem condições sanitárias apropriadas. Dessas, aproximadamente 8 milhões ainda precisam fazer suas necessidades ao ar livre. A falta de saneamento é um problema de saúde pública, pois estima-se que um bilhão de pessoas no mundo estão expostas a doenças como cólera, diarréia, hepatite, desnutrição e até mesmo problemas cognitivos pela falta de ambientes sanitários apropriados. O Dia Mundial do Banheiro foi proposto pela ONU para conscientizar sobre essas questões e incentivar os governos a agirem, para que todos tenham de fato o direito (já assegurado) à água e ao saneamento. Nessa série de fotos da nossa Inspiração da Semana, fica também a reflexão: ter acesso à água encanada é um privilégio que precisamos valorizar e preservar

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