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Ramon Cosenza aborda peculiaridades do cérebro

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Ramon Cosenza destaca que a espécie humana dispõe de um cérebro privilegiado em relação aos outros animais e que com ele somos capazes de raciocinar e de planejar. Mas, apesar desse sucesso, é necessário reconhecer que o cérebro é um dispositivo imperfeito e que deixa a desejar em muitos aspectos do seu funcionamento cotidiano, sem falar nos problemas que podem ser decorrentes de suas disfunções.

O médico e doutor em Ciências, autor do livro Por que não somos racionais, analisa e apresenta como os seres humanos usam o cérebro. Com uma linguagem acessível, explica os processos que nos levam a fazer escolhas e como o cérebro pode, com frequência, falhar em tomar as melhores decisões.

Segundo Cosenza, é importante compreendermos o porquê de algumas dessas falhas, e, para isso, é preciso conhecer um pouco da evolução filogenética do cérebro, do ponto de vista tanto de sua estrutura quanto de suas funções.

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O título do livro afirma que não somos racionais. Por que não somos racionais?

Nossas decisões ou comportamentos são racionais quando eles são adequados para atingir os nossos objetivos ou satisfazer os nossos melhores interesses. Nem sempre isso acontece, porque nosso cérebro tem falhas decorrentes da maneira como ele foi desenvolvido, ao longo da evolução das espécies. Em nossa vida diária, muitas vezes agimos de forma racional, mas outras vezes deixamos de fazê-lo. O livro procura mostrar por que isso ocorre.

Por que muitas vezes – como nas “decisões de ano novo” –  decidimos uma coisa e depois fazemos o contrário do que havíamos decidido? É possível melhorar a nossa força de vontade? 

Existem em nosso cérebro vários sistemas para a tomada de decisão. A maior parte desses sistemas tem um funcionamento autônomo e não depende dos nossos processos mentais conscientes.  Podemos decidir, conscientemente, fazer exercícios para perder peso, mas no dia-a-dia não resistimos às tentações de comer mais um pouquinho ou de ficar sentados em frente à televisão. Há um conflito entre esses sistemas de decisão e nem sempre leva vantagem o que decide racionalmente. Mas, podemos, sim, melhorar a nossa força de vontade e falamos um pouco disso ao longo dos capítulos do livro.

A espécie humana tem um cérebro privilegiado em relação ao de outros animais. Tomamos melhores decisões que eles?  

Os animais têm cérebros que permitiram a cada uma dessas espécies tomar decisões adequadas para sobreviver e se reproduzir em seus ambientes naturais. Nós temos um cérebro privilegiado, que tem recursos que os outros animais não têm, como a linguagem verbal, o raciocínio abstrato e a capacidade de imaginar as consequências de nossas ações no futuro mais distante. Isso permite que tomemos decisões que nos levaram a construir a civilização na qual vivemos. No entanto, algumas decisões tomadas, por exemplo, em relação ao consumo dos recursos naturais e a liberação de gás carbônico estão agora colocando em perigo a nossa própria espécie e boa parte da biodiversidade terrestre. Portanto, podemos tomar melhores decisões  do que são capazes os outros animais, mas nem sempre o fazemos.

O fato de que muitas decisões que tomamos não são as melhores escolhas significa que não usamos toda a capacidade do nosso cérebro? É verdade que só utilizamos 10% de nossa capacidade cognitiva?

Esse é um mito que encontramos frequentemente, mas que é incorreto: nós utilizamos toda a capacidade do nosso cérebro. Mas o cérebro é um sistema muito complexo, que funciona frequentemente de forma modular. Alguns módulos podem funcionar de forma autônoma e desencadear comportamentos que escapam ao controle consciente. Parece que a consciência é capaz de unificar vários desses processos e determinar uma direção mais adequada. Mas essa é uma maneira de funcionar mais lenta e que gasta mais energia. Frequentemente deixamos de exercer esse controle por economia de recursos ou, dito de outra forma, por pura preguiça mental.

Normalmente temos certeza de que estamos agindo conscientemente e que nossas decisões são racionais. Por que não somos capazes de perceber quando agimos de forma irracional?

Exatamente porque não temos acesso aos nossos processos inconscientes e, por outro lado, porque nosso cérebro cria histórias convincentes para explicar nosso comportamento como se ele fosse decorrente de um processamento racional. Não conseguimos ter noção de como a maior parte do nosso comportamento cotidiano depende desse processamento automático, que simplesmente escapa à nossa atenção consciente.

Existem diferenças entre as pessoas na capacidade de tomar melhores decisões? Isso é alguma coisa que pode ser aprendida?

Parece que sim. Algumas pessoas são mais racionais que outras e isso não está correlacionado diretamente com a inteligência. Muitos pesquisadores estão se debruçando sobre essa questão, tentando medir essa capacidade e verificar como o funcionamento cerebral se relaciona com ela. Podemos voluntariamente aumentar nossa atenção consciente e tentar, pelo menos em momentos críticos, tomar decisões mais racionais. Contudo, ainda assim é difícil ficar livre das armadilhas que são dispostas pelo funcionamento autônomo de partes do nosso cérebro. Em muitas ocasiões, mesmo tendo todo o cuidado ainda corremos o risco de tomar decisões e fazer escolhas inadequadas embora dispondo das informações necessárias para um comportamento mais racional.

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