Reflexões

Promessas não cumpridas

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Quem disse que o melhor parceiro para um filme é a pipoca? Aqui no BlogA, a gente acredita que cinema combina mesmo é com livro. Na seção Leia & Assista, publicamos dicas de cinema e de leitura para você aproveitar o final de semana.

Lançado no começo dos anos 2000, mas cada vez mais atual, Promessas de um novo mundo (Promises, 2001) é um retrato ao mesmo tempo sensível e brutal sobre a vida de crianças israelenses e palestinas em Jerusalém. Na época de seu lançamento, o longa foi indicado ao Oscar de melhor documentário e venceu os prêmios da escolha popular em outros festivais internacionais, como Roterdã (Holanda), Vancouver (Canadá) e São Paulo. Com razão. O pequeno recorte de história contado pelo trio de diretores B.Z. Goldberg, Justine Shapiro e Carlos Bolado poderia ser comovente por si só, ao mostrar a visão dos pequenos sobre a guerra. No entanto, os efeitos da própria realização do filme sobre seus protagonistas o torna muito maior do que uma simples exposição de fatos.


Yarko vem de uma família israelense não religiosa e Faraj vive em um campo de refugiados palestinos.
[FONTE: G1]

O filme nos fala das vidas dessas sete crianças que, separadas pela guerra, vivem tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Quinze minutos de viagem separam os gêmeos Yarko e Daniel, judeus seculares de Israel, de Faraj e Sanabel, que vivem com suas famílias em Deheishe, um triste campo de refugiados palestinos. Além deles, a equipe documentarista acompanha Shlomo, um pequeno judeu ultra ortodoxo; Mahmoud, um jovem militante do Hamas; e Moishe, um judeu radical que sonha em fazer parte do exército, todos com idades entre 11 e 13 anos. A descrição dos personagens não faz jus à sua personalidade. O que mais impressiona nas crianças retratadas é a clareza de seus pensamentos. Sejam eles radicais ou moderados, religiosos ou não, todos os depoimentos das crianças são carregados não apenas de um profundo sentimento de inevitabilidade, mas de uma surpreendente argumentação analítica. Todos eles, diante do trágico, do medo e das perdas, conseguem colocar em palavras seus sentimentos, como poucos adultos fazem, e, ainda assim, explicar com muita propriedade a natureza de suas opiniões. Para o espectador, fica a impressão de que, no fundo, todos eles estão certos, e todos os adultos parecem estar errados. 


Na época das filmagens, o pai de Sanabel, jornalista, estava preso havia dois anos, porém sem acusações formais e sem previsão de um julgamento.
[FONTE: Cinema for Peace]

Enquanto uns vivem em condições precárias (o campo de refugiados de Deheishe tem uma das maiores densidades demográficas do mundo), pois seus avós foram retirados de suas casas sem poder levar nada e precisaram refazer a vida com poucos recursos, outros levam uma vida relativamente boa, mas não à parte do conflito. Yarko e Daniel todos os dias pegam o ônibus para a escola e diariamente temem que ele possa explodir a qualquer momento. Sanabel vive com a falta do pai, preso sem acusações formais por ser um jornalista e suas ideias representarem um “perigo para as autoridades”. Moishe e Faraj viram seus amigos morrerem ainda crianças e tentam lidar com isso. Embora sintamos algum desconforto com o discurso dos jovens mais radicais no começo do filme, logo percebemos que aquelas crianças viram o que ninguém deveria ver e sofreram como poucos. A vontade é de dizer-lhes que tudo ficará bem, mas sabemos que tão cedo isso não irá ocorrer.

O longa foi gravado em um período relativamente pacífico na região, entre 1997 e 2000, no período entre duas Intifadas palestinas. A fim de situar sua narrativa, são utilizados alguns recursos jornalísticos. Mas, para além do entendimento desse capítulo de história do mundo contemporâneo, o filme nos permite enxergar a questão humana. E de uma forma pura, pelos olhos das crianças. A ausência de grandes conflitos permite o acontecimento que transforma todo o documentário: durante uma entrevista, Faraj pede para telefonar para os gêmeos israelenses e eles marcam um encontro. Essa foi uma surpresa até mesmo para os diretores, o que fica claro no momento em que ocorre. Do telefonema, surge o momento mais incrível do filme, Yarko e Daniel vão, pela primeira vez na vida, ao campo de refugiados. Após um dia de futebol e brincadeiras, as crianças acabam realizando um debate sobre suas realidades e falam sobre suas esperanças de um dia ter paz. É de cortar o coração.


O pequeno Moishe tem ideias extremamente radicais, mas logo compreendemos o que move seus pensamentos.
[FONTE: Estação]

Promessas de um novo mundo não é apenas um bom documentário, ele é necessário. Em cada pequena gesto ou reação daquelas crianças, compreendemos um pouco mais de sua realidade. Muitos de nós absorvemos diariamente notícias sobre os conflitos naquela região, mas pouco provavelmente conseguiremos compreender as reais consequências de uma guerra interminável. Mesmo com sua limitação temporal, nem nisso o filme falha. Em um prólogo, visitamos algumas crianças dois anos mais tarde para constatar o inevitável: eles mudaram. Muito da inocência e da compreensão para com os vizinhos se foi, e os pensamentos se tornaram mais endurecidos. Os sonhos parecem ter sido esmagados pela realidade. Terminamos o filme pensando: onde estarão eles agora? Só resta torcer para que ainda tenham um pouco daquela incrível humanidade que mostraram durante o filme.

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