Reflexões

Lucy e o cérebro pós-humano

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Com Scarlett Johansson encarnando uma anti-heroína, Lucy conta a história de uma jovem que se envolve acidentalmente com tráfico de substâncias ilegais e acaba se metendo em tremendas confusões. Parece meio bobo, e talvez seja, porém Lucy não é necessariamente um filme a ser levado totalmente a sério. O próprio longa parece não se importar muito com isso.

Fazendo uma boa bilheteria, inclusive no Brasil, a película polarizou a crítica entre os que não viram sentido nenhum na miscelânea científica do roteiro misturada à ação e os que a definiram como uma boa diversão com questionamentos relevantes acerca da capacidade humana. Sem tomar lados em um primeiro momento, podemos dizer que toda a crítica é legítima, mas se tratando de um filme de Luc Besson, com Johansson destruindo tudo e Morgan Freeman “explicando coisas” (impossível não acreditar no que esse homem diz!), por mais que flerte com o trash, o longa já nasce um pouco cult.


Sai da frente que lá vem a Lucy, e ela não está muito feliz, não.
[FONTE: Divulgação]

Apesar de a teoria de que usamos apenas 10% do cérebro ser um mito, é interessante a explanação do neurocientista Norman (Freeman) no início do filme sobre a evolução do cérebro e a imortalidade da célula, que se perpetua por meio de seus iguais. Embora bem didática, essa é a única explicação que temos no longa, pois, desde seu primeiro ato, no qual vemos Lucy sendo arrastada para essa cilada neurocientífica (em uma sequência genial que mescla os acontecimentos iniciais do filme com cenas da natureza selvagem), o ritmo frenético é mantido. Parece meio contraditório, pois as cenas de ação perdem em número para as de contemplação, mas essas correspondem ao roteiro estilo correria por meio de seus muitos efeitos especiais.

No filme, a capacidade exponencial do cérebro de Lucy é causada pela ingestão acidental de uma quantidade absurda da droga CPH4 que ela transporta em seu estômago, como mula. Na história, se trata da versão sintética de um hormônio produzido durante a gestação, responsável por gerar energia para o feto. Em doses cavalares, porém, os efeitos são inimagináveis. Em uma atuação que tem sido elogiada, Scarlett nos apresenta uma Lucy que vai se tornando cada vez mais robótica à medida que seu cérebro vai atingindo seu potencial máximo.

Capaz de controlar suas próprias células e as de outrem, além de basicamente toda a matéria que há no universo, a jovem logo percebe que não tem muito tempo e sai em busca do que sobrou da droga sintética, dos traficantes que a colocaram nessa enrascada e da ajuda do professor Norman. Com um contador de percentagem aparecendo em tela de tempos em tempos, o filme se atém ao suspense sobre o que acontecerá à moça quando seu cérebro chegar à capacidade máxima.


Se até o Morgan Freeman parece preocupado, o que sobra para nós?
[FONTE: Divulgação]

O melhor conselho para os que vão assistir ao longa é: não questione a teoria dos 10% ou a capacidade do CPH4, assim como nunca questionamos o fato de uma picada de aranha radioativa transformar um estudante em super-herói. Faz parte da ficção ser aceita em seu desapego à realidade. Mas, se os que gostam de seus filmes com bastante precisão científica devem ser alertados para uma possível decepção, o mesmo não pode ser dito dos que apreciam bons questionamentos acerca da existência.

A transformação de Lucy enquanto seu cérebro vai chegando mais perto dos 100% nos faz pensar: o que nos torna humanos, afinal? Está aí uma pergunta que vem se mostrando cada vez mais relevante ao passo em que evoluímos (ou seria o contrário?). Se, ao final, depois de tantos orientais derrotados e humilhados, tiros de bazuca, carros capotando em via pública e efeitos especiais insanos, você ainda não encontrar o sentido dessa bagunça toda, não se preocupe. Lucy diz a que veio na última frase do filme, deixando no ar a reflexão. E é aí que o espectador decide: valeu a experiência? Nós achamos que vale, sim, a pipoca.

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