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Jornalistas, notícias e o mercado

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Quem disse que o melhor parceiro para um filme é a pipoca? Aqui no BlogA, a gente acredita que cinema combina mesmo é com livro. Na seção Leia & Assista, publicamos dicas de cinema e de leitura para você aproveitar o final de semana.

Em Ilha das Flores, um filme de 1989, Jorge Furtado esclareceu para o mundo que o homem é diferente do macaco em razão do seu telencéfalo altamente desenvolvido e do se polegar opositor. Nesse curta, que o tornou mundialmente famoso, o cineasta falou de um tema que estava ali, na espreita daquela época, mas que ninguém ousava abordar. Era o lixo e a total falta de preocupação do ser humano sobre o seu destino. Em 2014, Jorge Furtado volta a falar de um problema que até os menos leigos no assunto fingem não ver. Não precisa ser jornalista para perceber: o jornalismo está em crise, nem que seja de identidade, e o mercado de notícias já não é mais o mesmo.


Elisa Volpatto faz Pecúnia e Nelson Diniz o Trombone
FONTE: Fábio Rebelo/Divulgação

Documentário com uma pitada de ficção, O Mercado de Notícias volta ao passado do jornalismo para tentar entender a revolução pela qual passa a comunicação, não só a brasileira, mas especialmente a nacional, com o advento da internet. Com a ajuda de medalhões da profissão, Furtado vai atrás de conceitos chaves da produção da notícia para compreender, afinal, o que está acontecendo. O ponto de partida é a peça que dá nome ao longa e que foi escrita por Ben Jonson, em 1625, nos primórdios da imprensa. A partir dela que conseguimos observar e refletir sobre algumas características do jornalismo, o interesse do público pelas notícias mais sórdidas e a necessidade de alguém separar o joio do trigo, a ficção da realidade. Os trechos da comédia de Jonson mostram que, desde seu início, a imprensa é vista como uma invenção de grande poder, mas também de grandes riscos.

Além do depoimento de 13 jornalistas de renome nacional, O Mercado de Notícias conduz o espectador. Não só explicando os conceitos básicos do jornalismo, de palavras-chaves como notícia, fonte, ética, mas mostrando também casos que comprovam que o fazer jornalístico é dos mais complexos e até o mais inocente leitor deve prestar atenção no que está lendo. Casos de grande repercussão na imprensa podem mudar a vida não só de partidos políticos, mas das mais simples pessoas. Pode parecer bruxaria, mas a verdade é que a seleção e a construção da notícia esconde muito mais do que aparenta.

O caso da Escola Base, uma escola infantil da zona sul de São Paulo, fechada em 1994 porque seus proprietários, sócios e uma professora foram injustamente acusados de abuso sexual contra alguns alunos é um dos mais assustadores. Saber que a notícia de que o delegado inocentou os seis acusados e que inquérito foi arquivado três meses após o surgimento das denúncias foi digno de uma nota de rodapé é assustador. Vinte anos depois, vários veículos de comunicação foram condenados a indenizar os professores acusados, mas será que o leitor que se horrorizou com a notícia na época tem essa informação? Será uma indenização capaz de compensar a vergonha e a humilhação pública que eles sofreram?


As comadres da peça Úrsula Collischonn, Janaína Kremer, Mirna Spritzer, Irene Brietzke e o diretor
FONTE: Fábio Rebelo/Divulgação

Mesmo tratando de um tema bastante sério, O Mercado de Notícias tem um tom irônico que até diverte. Os depoimentos dos jornalistas intercalados com a peça e com a narração do próprio Jorge Furtado – que foi do prédio do INSS em Brasília a Nova York para provar que uma réplica não era um Picasso original, como haviam noticiados alguns veículos – deixam o filme mais leve, apesar do tema sério. E se o documentário deixa uma lição (na verdade deixa várias, mas vale ver para descobrir) é que mesmo o mais ingênuo leitor ou, nos tempos atuais, internauta, tem parte nesse mercado e deve se interessar mais por ele, ir além de receber as boas e más novas da vida cotidiana.

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