Sobre livros

Infelizment

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Por Cristina Ustárroz*

Há muitos anos, o então Ministro do Trabalho no governo Collor, Antonio Magri, por ocasião de uma entrevista a jornalistas, afirmou: “o salário do trabalhador é imexível”. Uma pérola, não? Mais recentemente, Dunga, ex-técnico da seleção brasileira, também em uma entrevista,admitiu seguir os sugerimentos da filha quando o assunto é moda. Tanto na primeira situação quanto na segunda, os dois sofreram uma enxurrada de críticas: “burro!”, acusavam uns; “analfabeto!”, bufavam outros; “como pode ser ministro?”, rosnavam uns; “e técnico da seleção, então?”, espumavam outros. Quanto ódio naqueles coraçõezinhos! Inclusive no meu!

Mas qual teria sido a reação do público se essas duas palavras tivessem sido ditas por, deixe-me ver, duas crianças lindas e fofas? “Óóóun”! Que gracinha! Você vai alegar que criança pode! Ministro ou técnico de futebol não pode! Não pode o quê mesmo? Criar palavras? E como é exatamente que elas surgem? Além disso, apesar de não terem sido dicionarizadas, imexível e sugerimento enquadram-se perfeitamente nos padrões de formação de palavras por derivação. Assim ó: se pegarmos o verbo consentir, por exemplo, e quisermos transformá-lo em substantivo, basta acrescentarmos o sufixo –mento e teremos consentimento. Percebe a semelhança? Consentir/consentimento, sugerir/sugerimento. Com relação a mexer/imexível, temos mover/imovível. O que é terrível! Ou risível! Mas imexível faz sentido, mesmo que você permaneça inflexível. Olhaí!

Você, que estuda ou estudou inglês algum dia, nunca inventou um termo que, por analogia com palavras existentes, bem poderia existir? Algo assim, natural, espontâneo e, acima de tudo, que obedeça os padrões fonético e morfológico do inglês, tipo…rebolation! Como professora, poderia escrever muitos textos exclusivamente sobre palavras criadas em sala de aula e que nunca entraram em dicionários, mas que ganharam o mundo através de histórias engraçadinhas passadas de boca em boca. Quer outro exemplo? Enrolation! Observe a relação: se corporação em inglês é corporation, então enrolação é enrolation. Mais um? Que tal o nome de um dos produtos das Organizações Tabajara? Dental Sensibiliteitor e Emotiveitor Tabajara. Pura embromation sem sombra de dúvida!

Mas eu disse histórias engraçadinhas? É, disse! Todos nós, professores e alunos de inglês, somos complacentes com essas, digamos, preciosidades que cometemos em uma língua estrangeira. No entanto, somos muitas vezes hipermega super rabugentos com as preciosidades que cometemos no nosso próprio idioma. Você pode argumentar que estudamos português durante todo o período escolar – o que é verdade e não é pouco – e que, portanto, temos o dever de falar português corretamente. Você fala português corretamente? Eu não! Cometo deslizes o tempo todo. Aliás, como todo mundo! Já sei: você também não fala português corretamente, mas não se permite uma derrapadinha no inglês. Acertei? De qualquer modo, a minha dúvida é: por que o público não chiou quando ouviu, ou leu, a palavra empoderamento (dar ou adquirir poder) pela primeira vez?

Pois empoderamento nada mais é do que a palavra poder escorada entre o prefixo em– e o sufixo –mento. Uma tradução por semelhança do inglês empowerment. Em uma pesquisa bastante superficial, descobri que empowerment surgiu por aqui através de livros de autores norte-americanos e que, lá pelo início dos anos 2000, optou-se pela tradução por semelhança: “empoderamento” – assim, entre aspas e, logo após, sem elas. O fato é que empoderamento caiu nas graças do público, ao contrário de sugerimento. Isso tanto é verdade que uma agência de publicidade não perdeu tempo e, ainda em 2012, convenientemente criou um slogan poderoso para seu cliente: “Empodere-se na Empo”. Infelizmente, ninguém criou nada em cima de sugerimento. Só piadas.

De qualquer modo, são várias as palavras em inglês que já passaram por uma tradução por semelhança. Esta por sua vez, quando não nos presenteia com palavras novas, catapulta ao cotidiano expressões há muito tempo abandonadas por nós e atribui a elas outros significados. Tudo isso sem que ninguém ache esquisito. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Quer ver? A primeira vez que li a palavra revisitado, sobre um dicionário que havia sido revisado, falei ? Hoje, qualquer livro, não apenas os dicionários, são revisitados. Do inglês revisited. Antigamente, qualquer cidadão que realizasse uma façanha ou resistisse ao tempo era chamado de lenda. Hoje, ele é legenda. Do inglês legend. É. Fomos até a montanha. E voltamos com a mochila cheia. Aham!

Tempos atrás, apresentávamos comportamento descontrolado. Nos dias atuais, apresentamos comportamento errático – sim, do inglês erratic. Falando em comportamento, antes sofríamos de distúrbio comportamental; hoje, temos desordem comportamental – do inglês disorder. Antes, falávamos apenas em alfabetização; hoje, falamos também em letramento– de literacy. Ainda em tempos passados, discutíamos a taxa de ocupação de imóveis; hoje em dia, discutimos a taxa de vacância de imóveis – isso mesmo, de vacancy. O que prova que o léxico não é, perdão, imexível.

Antigamente, dizíamos duas horas, dois minutos… Atualmente, dizemos um par de minutos e um par de horas – da tradução de a couple of. Recurrent é algo que se repete. Sonhos, por exemplo. Em português, eles são recorrentes. Da mesma forma, to replicate significa repetir-se por reprodução ou multiplicação. Replique isso para seus amigos.  E não adianta replicar, digo, retrucar. Além disso, produtos em geral não mais deixam de ser fabricados ou produzidos. Eles são descontinuados – de to discontinue.  Mas eu vou continuar! Você já reformou seu apartamento? Perdão, eu quis dizer remodelou – de to remodel.


Fonte: alibubba

No tempo do vinil, fazíamos promessas para o Ano Novo e cumpríamos o que prometíamos. Agora, fazemos resoluções – de resolutions – e entregamos o que prometemos – acertou: to deliver! No rastro da festa dos Oscar Awards, comentaristas disseram que Daniel Day-Lewis “é um ator que nunca entrega menos do que um desempenho espetacular”. To deliver – de novo! No meu tempo, consistent significava coerente, e consistente significava espesso ou grosso. Pois não é que consistent virou consistente? O que não é nada coerente! É melhor eu rever meus conceitos. Reveja os seus você também! Ordem do dia? Virou agenda. Anote na sua!

Antigamente, códigos eram decifrados ou decodificados; atualmente, eles são quebrados – de to break a code. Antigamente, nos inscrevíamos; hoje, nos aplicamos – de to apply! O que era porta-remédio virou dispensador de medicamento- sentiu a manha? Porta-papel higiênico e porta-fita adesiva: dispensador e dispensador. Do inglês dispenser. Que, por sinal, também pode ser usado: dispenser para copo descartável (porta-copo) e dispenser para shampoo (porta-shampoo). E tem também os organizadores (de gravata, meia…). Voilà! De organizer! Você ainda vai ter um!

Não se pode negar que, ao contarmos com o inglês ou qualquer outro idioma como avalista para legitimarmos palavras novas, resgatarmos palavras esquecidas ou acatarmos significados diferentes, estamos expressando a ideia de que o que vem de fora é bom e o que vem daqui não é – e isso não é novidade. Quem bate o martelo? Todos nós! Mesmo que arbritariamente. Os dicionários não representam mais um alvará de uso das palavras. E estamos cada vez mais criativos no que diz respeito à linguagem falada – o que nos expõe a alguns tropeços linguísticos ocasionais. Atire a primeira pedra quem nunca escorregou no português. Ou no inglês. Infelizment!

Notas altamente esclarecedoras

• “Óóóun” é uma interjeição da língua falada que ganhou forma e projeção na língua escrita através das redes sociais. Entre seus vários significados estão “que gracinha”, “que amor”, “coisa fofa”. Óóóun!
• Na formação de palavras por derivação, uma nova palavra é criada por meio do acréscimo de um prefixo e/ou sufixo. Exemplos:feliz + mente = felizmente; in + feliz = infeliz; in + feliz + mente = infelizmente.
• Organizações Tabajara: empresa fictícia criada pelo pessoal do Casseta & Planeta, cujos produtos possuem nomes que parecem palavras em inglês: Carro Moita Disfarceitor Tabajara e Personal Mentirosation Tabajara, são alguns exemplos.
• Entre os primeiros estudos em língua portuguesa sobre o tema empoderamento, talvez o principal seja Empowerment: uma política de desenvolvimento alternativo, de John Friedmann (1996). De qualquer modo, a palavra empoderamento já foi incorporada no nosso léxico, mesmo que ainda não seja encontrada nos melhores dicionários, e seu significado diz respeito à capacitação de pessoas discriminadas e excluídas socialmente.
• É bom esclarecer: empoderar-se não significa apoderar-se (apossar-se/tomar posse).Mas já está feita a confusão.
Literacy significa “condição, capacidade de/disposição para ler e escrever”.
• Daniel Day-Lewis é um premiado ator britânico cuja atuação mais recente pode ser vista no filme Lincoln.
• O que nós chamamos de agenda (onde anotamos o que devemos fazer) em inglês é planner, organizer ou appointment book. Em inglês, agenda significa pauta de reunião, ordem do dia ou lista de tarefas. No entanto, por interferência do inglês, a nossa palavra agenda passou a significar também série de compromissos, encontros ou reuniões. Mesmo que não estejam anotados na agenda. Entendeu?
Voilá é uma palavra francesa e quer dizer “aqui está”. Não é ótimo poder recorrer a um terceiro idioma quando o português e o inglês falham em expressar exatamente o que queremos dizer?
• A função dos dicionários é apenas registrar ou documentar a linguagem. No entanto, eles também nos guiam: raramente nos atrevemos a usar, em língua escrita, palavras que ainda não tenham sido consagradas por eles.
Infelizment não existe. Nem na língua falada, nem na língua escrita. Pelo menos, ainda não!

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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