Educação

Inesperado Como Bagual Falando Inglês

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*Por Cristina Ustárroz

“Senhores passageiros, nosso tempo de voo é de aproximadamente 12 horas!“ Pois é! Quem já atravessou o atlântico ou visitou o hemisfério norte sabe: viajar de avião é como namoro: no começo é bom, mas no fim fica mais chato que colchão de gordo. A não ser que seu vizinho de assento seja do interior do interior do Rio Grande do Sul, um tipo assim bonachão e meio, digamos, abagualado. Foi justamente o que aconteceu comigo ao retornar de minha última viagem. Quer ver?

“Tu é gringa?“ Pergunta o bagual na fila do balcão de embarque. Tentando esbanjar uma certa simpatia, esclareço: não, sou gaúcha também, professora de inglês. E o bagual se anima: “Voo internacional é comprido barbaridade! Como cuspe de bêbado! E como suspiro em velório! Como é mesmo que se diz isso em inglês?“ Respondo tranquilamente: as long as a month of Sundays! E o bagual se diverte: “Só isso, profe? Que tradução mais sem graça!“

E continua: “Achar o balcão de embarque em aeroporto é fácil como contar 1 2 3. Como se diz isso em inglês? “As easy as ABC, asseguro. E o bagual revida: “Abc? Quem falou abc? Eu falei 1 2 3! Mas que tradução mais fajuta! E como se diz fácil como tirar pirulito de criança?“ Me encho de coragem e brinco: as easy as taking candy from a baby!

O bagual parece meio frustrado, mas continua seu discurso: “A minha mala tá pesada como sono de surdo. Como se diz isso?“ E justifico, cheia de dedos: na falta de uma expressão mais literal, diga as heavy as a pile of bricks. Mas o bagual não demonstra muita convicção e zomba: “Tchê, profe, tu tá mais por fora do que umbigo de vedete!

E mantém a prosa na fila do detector de metais: “Agora é uma de tirar cinto, tirar moeda, tirar bota… Ficamos praticamente pelados como sovaco de santo!“ E olha para mim de um jeito inquisidor! Ao que respondo com hesitação: as naked as a jaybird! “Ô, vivente!“ – interrompe o bagual, tirando sarro do meu inglês – “e eu lá sei o que é jaybird? Melhora essa tradução aí, tchê!“ E passa a olhar para mim com desconfiança.

Mas nem no controle de passaportes ele desiste do papo! “O cara olha a nossa foto e deve pensar: esse daí é feio como o diabo! Ou como briga de foice no escuro! E se o passageiro for mulher, então, o cara deve pensar: essa daí é feia como mulher de cego!“ Sem achar equivalentes em inglês para essas bagualices, digo, comparações, sintetizo: as ugly as sin! E provoco: é o que temos para hoje!

Sem se dar por vencido e já acomodado no avião, ele diz: “Voo internacional é como albergue aéreo – um monte de vivente se acomodando como pode. É mais apertado que rato em guampa! É gente amontoada como uva em cacho! “Like sardines in a tin, reajo!

E depois do video com as intruções de segurança, os comissários anunciam a partida. “Mas quem é que entende o inglês deles? Está longe de ser claro como a luz do dia.“ Ele olha para mim e eu vacilo de propósito: as clear as… daylight. “Agora sim! Finalmente uma tradução que se preze!“ Elogia o bagual!

E prossegue durante a decolagem. “Alguns passageiros estão contentes como cusco de cozinheira.“ E eu concordo: as happy as a dog with two tails. “Outros estão nervosos como gato em dia de faxina.“ E eu arrisco: as nervous as a long tailed cat in a room full of rocking chairs. “Aquele lá tá com o rosto suado como tampa de chaleira!“ aponta com o dedo. E murmuro: as nervous as a turkey at Christmas! “Já outros se sentem livres como um pássaro.“ Essa é fácil, ressalto: as free as a bird.

E chega a hora da refeição. “Os comissários empurram aquele carrinho como a cara deles, quero dizer, com a cara mais amarrada que pacote de despacho, devargazito como quem tropeia lesma“, reclama. As slow as molasses in January, interrompo. “E quando chega a sua vez, terminou o frango! Passa a massa ou vou ficar faminto como um urso!“ Com entusiasmo, lasco: as hungry as a bear!

“Ruim mesmo é que junto com a altitude de cruzeiro chegam os roncos e o ar fica mais fedido que meia suja“, resmunga o bagual. As smelly as dirty socks, disparo.  “Durante a noite a garganta fica seca como charque velho esquecido no varal.“ E olha para mim! As dry as a bone, declaro com firmeza.

“Mas o pior está por vir: disseram que esta aeronave possui um banheiro na parte dianteira e outro na parte traseira. E os dois estão cheios como bolsa de china. Mas que barbaridade!“ Ao invés de me fazer de morta, retruco: as crowded as rush hour! “Tchê, profe“ – diz ele – “tu é esperta como gringo de venda”.

E a conversa segue noite adentro. “É melhor puxar o cobertor, pois pode fazer frio de renguear cusco”. E eu me exibo: as cool as ice. “Fico mais encolhido que tripa grossa na brasa!“ E eu finjo que não escutei. “Vez que outra“, segue o bagual, “abro a janelinha no meio da madrugada somente para constatar que o céu é negro como o breu.“ E eu pulo da cadeira: as black as coal. “E todos ficam mais quietos que mosquito na parede! “As quiet as a church mouse”, digo eu com orgulho.

Até começar a turbulência! “Esse avião saracoteia mais que bolacha em boca de véia. E todos ficam mais assustados que cahorro em canoa. Mais brancos do que leite de vaca.“ E eu, branquinha como aipim descascado, experimento: as white as a ghost? O bagual parece contrariado como gato a cabresto! “Essa tradução é mais curta que coice de porco!

As aeronaves, afirmo, são fortes como um touroas strong as an ox! E complemento: firmes como uma rocha – as steady as a rock! Ao que o bagual ironiza: “só se for firme que nem prego em polenta. Ou firme como palanque em banhado!“ Mas logo o voo fica calmo que nem água de poço. As boring as watching paint dry, enfatizo!

“Para não ter dor de ouvido durante o pouso e a decolagem, tapo o nariz e sopro os ouvidos“, confessa o bagual. “E evito ficar bêbado como um gambá. “As drunk as a skunk, salto eu! “Daí fico sonolento como um cordeiro. Pronto para me aconchegar! “As snug as a bug in a rugaconchegado como inseto em tapete, declaro. Só não precisa babar que nem boi com aftosa! Xi, fui eu que falei isso?

“Entre decolagem e aterrissagem, o estado dos banheiros muda drasticamente: de limpo como fogão de solteirona para mais sujo do que pau de galinheiro. “E eu finjo que sou surda como uma porta! “O café da manhã é rápido como buscador de parteira.“ Faço de conta que não é comigo!

“Senhores passageiros, dentro de instantes estaremos pousando. “Olho para o bagual e agradeço: graças a sua companhia esse voo não foi chato que nem gilete caída em chão de banheiro – boring like flat soda to the children. Fiquei mais à vontade que bugio em mato de boa fruta – comfortable like a cat on the couch! Sem a sua companhia eu estaria mais perdida do que surdo em bingo – lost like a feather in a hurricane!

E não me olhe de boca aberta que nem burro que comeu urtiga, me despeço. Esse voo foi bueno como namoro no começo! Mas vamos logo porque nossa cara tá mais amassada que dinheiro de bêbado! Subitamente, ele olha para mim pela última vez. Eu não resisto: like a dropped pie! E ele ri como se não houvesse amanhã!

 

Notas altamente esclarecedoras

Similes são comparações que contam com as expressões like e as. Elas podem conter uma pitada de sarcasmo ou exagero e são usadas para ilustrar ou dar ênfase a uma determinada situação. São muito usadas em todos os gêneros literários e na comunicação oral. As comparações gauchescas são um bom exemplo de símiles em português.

• Assim são os idiomas: às vezes nossa língua materna é capaz de descrever uma situação com maior riqueza de detalhes. Nesses casos, nenhuma tradução para outras línguas consegue fazer jus ao contexto no qual a situação está inserida.  Outras vezes o que é dito em outro idioma soa mais completo, ou mais fiel à realidade, do que sua tradução em português. Fazer o quê: um dia é da caça, o outro é do caçador!

• Regionalismo (como o descrito no texto) é um conjunto de particularidades linguísticas decorrente da cultura de uma região. Eu poderia ter usado outros regionalismos: o nordestino, o mineiro, o paulista. Eu também poderia ter usado regionalismos portugueses: dos Açores ou da Ilha da Madeira, por exemplo. Mas optei pelo regionalismo do contexto ao qual pertenço. Portanto, gente bagual: love you, guys!!!

• Veja mais exemplos de similes em inglês:

simile examples for kids

figures similes list

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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