Educação

Fofuras e fofuritchas

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Por Cristina Ustárroz*

O que as palavras gorducho, gordinho, gordão e gordaço, ou, vá lá, gorducha, gordinha, gordona e gordaça têm em comum? A todas foi acrescentada uma terminação, um sufixo, certo? E no que elas diferem? No uso! Para cada sufixo correspondem sentimentos, situações e intenções diferentes. Eu poderia chamar alguém de gordão se minha intenção fosse criticar; gordaço se minha intenção fosse constatar, ou talvez enaltecer, e gorducho ou gordinho se eu quisesse demonstrar algum tipo de intimidade com meu interlocutor. Hipoteticamente falando, como você se sentiria se alguém chamasse você de gorducho? Aliás, você está ótimo! Mas, voltando ao assunto, você se sentiria da mesma maneira se, em vez de gorducho, você fosse chamado de gordaço? E quanto a gordão?

Mesmo que o significado da palavra original, gordo, permaneça inalterado nas quatro formas (afinal, estamos decididamente falando de quem está com alguns quilinhos a mais), provavelmente você usaria cada uma delas para se referir a pessoas diferentes. É bem por aí, não? O fato é que os sufixos são usados para ilustrar criativamente o tom de uma conversa. Sua função enriquecedora vai além de alterar o significado ou modificar a função da palavra que acompanham. Tanto que, em inglês, algumas palavras bem conhecidas são também usadas como sufixo.


Ruth, a acrobata gorduchinha.

É o caso de free, para início de conversa. Free é um adjetivo e significa livre. Usado como sufixo, significa sem/livre de: a germ-free environment (um ambiente sem germes), a bias-free language (uma linguagem sem preconceito/imparcial), duty-free shops (lojas que oferecem isenção ou redução de tarifas alfandegárias), sugar-free chocolate (chocolate feito sem adição de açúcar), salt-free food (comida feita sem adição de sal), a stress-free life (uma vida sem estresse, exatamente como todos gostaríamos), smoke-free workplaces (locais de trabalho onde é proibido fumar), e a scandal-free life (uma vida sem escândalos), além de muitos outros exemplos.

Falando em escândalos, gate é um substantivo e significa portão, mas o uso de gate como sufixo indicador de qualquer escândalo, principalmente os que envolvem políticos e governistas, veio logo após o episódio Watergate, há exatos 40 anos. A verdade é que esse bafão penetrou tão profundamente no consciente – e inconsciente – de todos que logo outros babados ganharam o sufixo gate nos dois lados do Atlântico: Thatchergate, Irangate ou Contragate, Whitewatergate e Climategate, são alguns exemplos de uma longa lista que inclui uma centena deles, todos alusivos a Watergate. É como se cada novo escândalo remetesse a Watergate por meio do reconhecimento da sonoridade do sufixo e de sua constante repetição.

Política à parte, o escândalo conhecido por Squidgygate ou Dianagate lida com a gravação de uma conversa telefônica em 1989 entre Diana Spencer e um amigo, na qual ele chama a princesa de squidgy, que significa suavidade ou maciez – acredite, squidgy é tudo de bom, pelo menos em inglês britânico. Já Camillagate trata da transcrição de uma conversa telefônica entre Charles e Camilla Parker Bowles em 1992, época em que o príncipe ainda era casado com Diana. Zippergate ou Monicagate ou Lewinskygate ou Tailgate ou, ainda, Sexagate refere-se a um relacionamento, digamos, inadequado entre o Presidente Bill Clinton e uma estagiária da Casa Branca em 1998.


Uma notícia que rendeu muitos sufixos!

Tudo isso sem mencionar o vazamento de documentos confidenciais envolvendo o website WikiLeaks. Este foi chamado de Cablegate. E por falar em leaks (vazamentos), você já ouviu falar em Vaticanleaks? Pois é, sempre tem um espertinho à espreita, seja para trazer o escândalo à tona, seja para dar um nome sugestivo a ele e – quem sabe – bolar algumas piadas em cima do assunto, ou para gerar um antídoto, uma proteção, como no caso de leakproof email, um email à prova de vazamentos. Certamente nossos políticos corruptos já devem ter conseguido um desses.

A propósito, há muitos adjetivos com o sufixo proof, que por sinal significa qualidade impenetrável: a tamperproof container (um recipiente à prova de fraude/adulteração), a waterproof watch (um relógio à prova d’água), a bulletproof vest (um colete à prova de balas), a soundproof room (uma sala à prova de som), a foolproof plan (um plano infalível), a hackerproof password (uma senha imune ao ataque de hackers), sunproof lotion (protetor solar), e a childproof socket (uma tomada elétrica à prova de crianças).

Trash, que significa lixo, não por acaso funciona pejorativamente: trailer trash (pessoas que vivem em trailers ou em motor homes), e white trash (pessoas de cor branca de baixo nível social e educacional) – conforme Bono, do U2, descreve na música Yahweh: “take this shirt, polyester white trash made in nowhere…”. Do mesmo modo, Eurotrash, em bom português lixo europeu, é como os americanos referem-se, principalmente, aos descendentes de europeus – incultos, mas endinheirados – que moram nos EUA. De qualquer modo, essa coisa de Eurotrash é entre americanos e europeus, ou qualquer outra nacionalidade do lado de lá do Atlântico. Vai ver os conterrâneos de George Clooney se acham superiores só porque eles têm Hollywood.

Pois os nigerianos têm Nollywood; os indianos têm Bollywood, Kollywood e Tollywood; e no Paquistão, bem, eles têm Lollywood. Você é um movieholic (cinéfilo)? Lamento, mas aholic, ou holic, como o sufixo sugere, está ligado a vício ou compulsão. Seja você alcoholic (alcoólatra), golfaholic (viciado em golfe), bookaholic (viciado em livros), workaholic (trabalhador compulsivo), shopaholic (comprador compulsivo), ou sexaholic – cuidado! Você é chocoholic (chocólatra)? Não cometa exageros! Caso contrário vai ficar fattish (olha o gordinho aí, gente!).


Você já assistiu a filmes bollywoodianos? (Imagem via.)

À vista disso, o sufixo ish, muito comum em nacionalidades, como British e Spanish, pode também ser usado em substantivos e adjetivos para expressar ideia de semelhança ou aproximação, algo vago ou pouco preciso. Estou sendo vaga e pouco precisa? Trocando em miúdos, significa um tanto quanto/mais ou menos. Por exemplo, childish refere-se a alguém que possui comportamento um tanto infantil/imaturo, greenish qualifica algo como sendo um tanto esverdeado, tallish significa um tanto alto, smallish é algo um tanto pequeno, fortyish sugere algo em torno de quarenta (idade, por exemplo), e tennish serve para marcar um compromisso em torno das dez horas. É possível acrescentar-se ish a um nome próprio, como em Annish ou Jackish (algo típico da Ann e do Jack). Na verdade, ish não precisa necessariamente acompanhar outra palavra. O que você achou do Rio + 20? Meia-boca? Diga ish! Sem dúvida, este sufixo é de fácil utilização por parte do aluno. Pode-se dizer, então, que ele é student-friendly.

Eu disse student-friendly? Pois observem como a língua funciona: friend é um substantivo e significa amigo. Acrescentando-se a friend o sufixo ly teremos friendly, que é um adjetivo e significa amigável/amistoso. Mas friendly também pode ser usado como sufixo. Nesse caso, passa a significar adequado para o uso. É o caso de kid-friendly society (sociedade voltada para as necessidades da criança), printer-friendly version (versão para impressão), user-friendly computer (computador de fácil utilização/manuseio), environment-friendly conditions (condições que respeitam o ambiente), e customer-friendly attitude (atitude favorável ao cliente).

Já o sufixo ling é indicador de diminutivo. Parecido com o nosso inho/inha. Quem nunca leu a história infantil O Patinho Feio? The Ugly Duckling! Ling expressa também um significado pejorativo, uma qualidade inferior, como em underling (subordinado). Se você é fã de Game of Thrones, conhece bem os wildlings (os selvagens); se é fã de Senhor dos Anéis, sabe quem são os halflings (os pequeninos/Meia-Coisa). E se um ET simpático chegasse aqui agora, ele provavelmente diria “Greetings, earthlings”! Ou “Saudações, terráqueos”! Apesar de simpático, preconceituoso ele, não?

Por fim, o sufixo o. É isso mesmo. A letra o. O sufixo de algumas gírias, pois ele dá um caráter informal e familiar às palavras. Acrescentando-se esse sufixo ao adjetivo sick (doente), por exemplo, teremos o substantivo sicko (psicótico/mentalmente perturbado). Resumindo, pervertido! Do mesmo modo, psycho (psicopata/neurótico) diz respeito a alguém com comportamento louco ou violento. Weirdo (do adjetivo weird = estranho) significa esquisitão, e wacko (doidão) é uma corruptela do adjetivo wacky (maluco). Kiddo (do substantivo kid = criança) é um modo afetuoso de dirigir-se a alguém mais jovem, pregnant (grávida) vira preggo e ammunition (munição) vira ammo. Enfim, você quer saber como se diz gorducho em inglês? Fatso! Ou fattie

Nessa engenharia linguística vamos construindo as palavras que queremos usar, tirando uma sílaba daqui, acrescentando uma terminação ali, transformando sua estrutura e alterando seu significado. Quanto ao hipotético fato de alguém chamar você de gorducho, gordinho, gordão ou gordaço, liga não, seu bobo. Obviamente, você pode atribuir a esses sufixos usos e interpretações que não essas. Lembre-se: tudo depende do contexto. E, neste caso, da entonação. Aliás, como eu já disse antes, você está ótimo! Corpitcho, corpinho, corpão e corpaço.

Notas altamente esclarecedoras
Watergate: o Presidente Nixon, que era republicano, autorizou o arrombamento aos escritórios da sede do Partido Democrata no edifício Watergate em Washington D.C. para roubar documentos que poderiam jogar seu nome na lama e obter informações plantando escutas telefônicas (1972);
Thatchergate: trechos de discursos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan foram pinçados e gravados para parecer uma conversa telefônica na qual eles afirmavam que a Europa seria usada como alvo de armas nucleares caso um conflito entre os EUA e a União Soviética acontecesse (1983);
Irangate ou Contragate: durante o segundo mandato do Presidente Ronald Reagan, foi revelado que agentes da CIA facilitaram o tráfico de armas para o Irã a fim de assegurar a libertação de reféns americanos e financiar os Contras da Nicarágua (1986);
Whitewatergate: investigação de negócios imobiliários do Presidente Clinton e sua esposa Hillary sob alegação de terem praticado atos ilegais (1992);
Climategate: cientistas envolvidos em mudanças climáticas supostamente falsificaram informações para sustentar suas teorias e destruíram informações que as refutam (2009).
Yahweh (Javé/Jeová) é uma canção do U2, e a frase mencionada no texto, numa tradução livre, significa mais ou menos o seguinte: “pegue essa camisa, lixo branco de poliéster feita em lugar nenhum”.
• Dica de pronúncia: sicko (diga sicou) vs psycho (diga saicou).

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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    2 Comments

    1. Ler os textos da Cristina é uma delícia… delícia, ai estou gordacha!!!! rsrsrsrs. Mas isso é momentâneo em seguida ficarei gordinha e poderei novamente pensar nas delícias.

    2. Nossa, muito legal esse texto! Instrutivo e interessante, eu ignorava totalmente essa do [i]gate[/i].
      Adorei! 😀

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