Educação

Fazer as Pazes

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*Por Cristina Ustárroz

Você gostaria de saber como foi que giving thanks virou thanksgiving? Essa é fácil! Da mesma forma que breaking a record virou record-breaking, que making money virou money-making e que provoking thoughts virou thought-provoking. Assim: em vez de dizer a satellite that orbits the earth diga an earth-orbitting satellite – um satélite de órbita terrestre! Entendeu? Ah, já sei! Você acha que estou trocando seis por meia-dúzia e só quer mesmo é saber como foi que thanksgiving virou dia festivo, certo? Vamos lá!


[Autor: Jean Louis Gerome Ferris]

Nada de tesouros de saltar os olhos – eye-popping treasures. Nada de minas de ouro de fazer parar o coração – heart-stopping gold mines. Nada de descrições reveladoras sobre a vida sexual dos selvagens – eye-opening descriptions. Nada de gente chegada numa diversão – fun-loving people. Nada, nada, nada disso! O que os colonos queriam mesmo era oferecer um jantar de ação de graças – a thanksgiving dinner! E eles tinham muito a agradecer!

Esses colonos eram basicamente pessoas de quem a Coroa Britânica queria se livrar: hippies, irlandeses, democratas, pobres, pichadores, bandidos e caloteiros. Além dos puritanos, judeus e católicos, claro! Foi-lhes oferecido um acordo: pena de morte na Inglaterra ou morte lenta na mata no Novo Mundo. Escolheram a segunda opção e vieram à America balançando em um barquinho mercante todo desconjuntado chamado Mayflower. Nem todos sobreviveram à travessia, mas os que conseguiram tinham muito a agradecer. A duras penas, eles estavam escapando de algo muito pior na Inglaterra: aquele tempinho de tirar o ânimo de qualquer um! Você disse mood-dampening weather? Falou e disse!

Quando chegaram ao Novo Mundo, temiam que os índios fossem do tipo que come gente – man-eating indians – e suspeitavam que aquela experiência colocaria suas vidas em risco – a life-threatening experience! Obviamente, nem todos foram poupados das machadinhas, mas os que conseguiram manter seus escalpos tinham muito a agradecer. Ao começar vida nova, tiveram que se virar por conta própria sob pena de acabarem a sete palmos abaixo da terra já que não sabiam plantar um pé de alface.


[Fonte: Old Map]

Os colonos que foram humildes – ou sortudos – o suficiente contaram com as habilidades culinárias da tribo Wampanoag, cujos membros preparavam um molho de cranberry de dar água na boa – a mouth-watering cranberry sauce! Na verdade, os índios ensinaram os colonos a caçar, pescar e a praticar arvorismo – tree climbing. Bem, só caçar e pescar! E construir casas. Tudo isso com pequenas invenções que poupam trabalho e ferramentas que poupam tempo – labor-saving inventions e time-saving tools! Bem antes de se ouvir falar em coworking, cohousing e crowdfunding!

Enquanto isso, as esposas dos peregrinos foram aos poucos aderindo à moda na selva. Confeccionaram uns modelitos de saias feitas com folhagens de prender os olhos! Adivinhou? Eye-catching grass skirts! Sem falar nos sutiãs feitos de coco. De cair o queixo – jaw-dropping coconut bras! E foram aos poucos aprendendo os truques da gastronomia nativa. Foi no comando dos fogões a lenha que elas adquiriram aquela manha de morder o lábio e enrolar o cabelo nos dedos – lip-biting e hair twirling. Além de provar guloseimas de lamber os dedos – finger licking treats! Afinal, elas estavam escapando de algo muito pior na Inglaterra: aquela comida que não tem gosto de nada! Ouvi flavor-lacking? Bati o martelo!

Os peregrinos e suas famílias ficaram tão gratos aos nativos pela ajuda e hospitalidade, sem as quais teriam morrido no primeiro inverno, que quando o outono seguinte chegou, os caras-pálidas, já mais independentes, tiveram uma ideia inovadora – a groundbreaking idea: vamos planejar uma festa para inaugurar a casa. Alguém aí falou housewarming? E convidaram seus vizinhos peles-vermelhas para juntos celebrar a colheita farta com uma boa comilança – ou era para celebrar a boa colheita com uma farta comilança? Afinal, os índios não eram exatamente alienígenas gosmentos que grudam no rosto das pessoas – face hugging aliens!

Os selvagens receberam o convite com uma gritaria de estourar os ouvidos, gelar os ossos e tremer os joelhos – ear-splitting, bone-chilling and knee-trembing screams. Quando as visitas chegaram, houve troca de cordialidades e tapinhas nas costas. Acertou quem disse shoulder patting! Os nativos trouxeram bebidinhas para matar a sede – thirst-quenching drinks. Os colonos, por sua vez, imitaram o Matthew McConaughey na cena em que ele bate no peito em The Wolf of Wall Street – that chest-thumping scene! Tudo isso, lógico, antes de morderem a mão que os alimentou – será que a mão que os alimentou estava suja?

Perto da desenvoltura dos índios, os colonos pareciam crianças chupando dedo. Muito bem – thumb-sucking! No entanto, eles eram os mesmos colonos que poluiriam o planeta, empunhariam armas e provocariam guerras – planet-polluting, arms-bearing, and war-starting colonists! E ainda registrariam essas ações em filmes sobre pessoas que lidam com a lei em todos os sentidos – law-abiding, law-breaking e law-enforcing people! De qualquer modo, parece que o desejo incontrolável por carboidratos já era registrado naquela época. Pensou carb craving? Diga bem alto!

O que poderia ser um momento de arrepiar os cabelos – a hair-raising moment – transformou-se num bom papo, que incluiu comentários sobre o esporte da época – o lacrosse. Mas essa paz durou menos do que fogo de palha. Você sabe que fim levaram os índios americanos, não? Conseqüentemente, Thanksgiving é hoje celebrado por todos, menos pelos indígenas. Pena!

Só que a data festiva não foi comemorada nos anos seguintes. E levou muito tempo até que se consolidasse como a grande comemoração que é hoje, com direito a desfile com balões gigantes nas ruas de New York City. Atualmente, o cardápio de Thanksgiving Day envolve uma refeição com as comidinhas lá de 1621, tais como um peru crocante por fora e suculento por dentro, milho, ervilha, batata doce e – o toque final – molho de cranberry, seguido de torta de maçã ou de abóbora. Enfim, um buffet de agradar uma multidão – a crowd-pleasing buffet! Só não babe no teclado!

O dia após Thanksgiving Day chama-se Black Friday, dia em que os americanos vão às compras como loucos. E foi o Presidente Truman em 1947 quem iniciou a tradição de livrar um peru de perder suas penas e ir parar na mesa de Thanksgiving. Primeiro eles jogaram a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, o que foi um evento de chocar o mundo – a world-shocking event! Então, eles salvaram um peru. Foi assim que giving thanks virou Thanksgiving!


[Fonte: Wikipedia]

Viu como é fácil? Experimente você também. Tente fazer making peace virar peacemaking, por exemplo. Sim, fazer as pazes. Com seu vizinho. Ou com seu colega no trabalho. Com seus familiares. Ou com o amigo que discorda de você nas redes sociais. Enfim, faça as pazes com você mesmo. Você vai fazer esse Thanksgiving valer muito a pena!

Notas altamente esclarecedoras:

Compound modifier (também chamado de compound word ou phrasal adjective) é uma expressão de duas (ou mais) palavras unidas por hífen e que funciona como adjetivo ou substantivo – certo, a presença do hífen é polêmica. Deixemos isso para outro momento. Os compound modifiers que usei no texto são do tipo substantivo + particípio presente. Aqui vão outros exemplos: missile-carrying rockets, mind-blowing projects, heart-warming words, bull-fighting, horseback-riding, breathtaking, mind-boggling, gut-bustingLeia mais.

• Os substantivos coworking e cohousing são formados com o prefixo co-.

• Alguns historiadores contestam o que conhecemos como o cardápio das primeiras celebrações de Thanksgiving. Eles argumentam que os colonos não tinham habilidade de caçar perus selvagens, mas eram bons caçadores de marrecos, gansos e cisnes, por exemplo. Com relação às batatas, historiadores alegam que o tubérculo, levado da América do Sul para a América do Norte pelos exploradores espanhóis, não era ainda facilmente encontrado naquela época. E, mesmo que os índios conhecessem cranberry, jamais poderiam fazer o famoso molho de cranberry dos dias atuais. Leia mais aqui ou aqui.

• O Presidente George Washington, aliviado porque os americanos derrotaram os Britânicos na Guerra Revolucionária, encorajou a celebração determinando Thanksgiving Day em 26 de Novembro de 1789. Mas foi uma mulher, Sarah Josepha Hale, quem liderou um movimento popular, durante o mandato de Abraham Lincoln em 1863, para transformar o dia em feriado. Ainda, grato porque a Guerra Civil não dividiu o país para sempre, o Presidente Lincoln passou o feriado para a última quinta-feira de novembro. Porém, temendo que as lojas ficassem desabastecidas para o natal, o Presidente Franklin Delano Roosevelt antecipou a data para a quarta quinta-feira de Novembro em 1939, mas alguns estados ignoraram o fato. E a confusão não parou aí: no ano seguinte, Roosevelt puxou o feriado para a terceira quinta-feira de novembro, e desde 1941, com status de lei federal, o feriado passou a ser comemorado na quarta quinta-feira de Novembro.

• Leia mais sobre o desfile de Thanksgiving aqui.

• Thank you, Grupo A!

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA. 🙂

 

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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