Educação

Do you speak Spanglish?

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Por Cristina Ustárroz*

Se eu pudesse, levaria você aos Estados Unidos. Pela minha mão, você visitaria Boca Raton e, porque não, Las Vegas. Caminharia ao longo da Rodeo Drive. Chegaria bem perto da Sierra Nevada. Tiraria fotos de armadillos. Beberia vinho em alguma bodega. É quando você se pergunta: Estados Unidos? Isso está mais com cara de México! E você está certo! É que falar inglês pode ser mais fácil do que você pensa, se você souber um pouquinho de espanhol. ¿Comprende?

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Eu disse “souber um pouquinho” e não ”inventar um pouquinho”. Afinal, não basta dizer pipueca con cueca cuela! Isso é o que nós, brasileiros, fazemos. Ou acrescentar um o ao final de cada palavra em inglês, tipo ¡no problem-o! Isso é o que os americanos fazem, incluindo exterminadores do futuro. Se nem o Brad Pitt conseguiu essa façanha, imagine você. ¿Right-o?

E sabe-se lá em quantas situações constrangedoras você vai se meter se suprimir ou acrescentar sílabas, ou, ainda, se inverter a ordem delas. Não vá confundir cuchara, que significa colher, com cucaracha, que significa barata. Tampouco faça como o hóspede que preencheu a ficha no hotel: ¿Nombre? José.¿Apellido? Zé. Você sabe que apellido não significa apelido, certo? É sobrenome! E jamais diga que estáembarazada, a não ser que esteja grávida. Caso contrário, ¡no way, Jose!

Outra cilada muito comum é repetir a última palavra de uma pergunta como se fosse uma resposta. Reza a lenda que o explorador espanhol olhou para o bicho e perguntou ao nativo: ¿cómo se llama? E o nativo, como que hipnotizado, ecoou: llama.  Ta-da!

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E muito cuidado ao supor que seu conhecimento de espanhol é melhor do que seu conhecimento de inglês. Principalmente se você for para um país dos Bálcãs, a Croácia, por exemplo, e no primeiro dia escutar na rua a seguinte frase dita por um turista espanhol: ¡La moneda es kuna! Pense bem antes de informar seu pessoal que a moeda local se chama escuna.

Também de nada adianta empinar uma garrafa inteira de tequila, ou vinte margaritas. Além de tomar uma bebedeira medonha, você só vai enrolar mais a língua. E nem pense em duplicar ou omitir palavras essenciais à estrutura da frase, como em ¡bang bang you dead! Isso não é inglês, muito menos espanhol. Isso é coisa de índio em filme sobre o velho Oeste! ¡Ay, ay, ay, caramba!

Falando em índio, os espanhóis foram os primeiros a pisar em solo americano depois que o explorador italiano descobriu a América. Somente na época do conquistador, cerca de 300.000 soldados, padres, don juans e borrachos espanhóis cruzaram o oceano – mi casa es su casa, eles provavelmente disseram para o cacique, segurando uma garrafa de amontillado. ¡Olé!

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Quando os primeiros imigrantes britânicos chegaram, surpreenderam-se ao encontrar um monte de colônias e missões espanholas. Só que os filhos de Cervantes, ocupados com a siesta, acabaram perdendo a guerra e, consequentemente, suas terras na Gringolandia, digo, no país que se chamariaUnited States of America. É o que dá ficar comendo muesca. Eu disse muesca? Perdão!

O fato é que a língua inglesa se apropriou de inúmeras palavras espanholas como cargo, hacienda eponcho. Os primeiros sinais de organização mafiosa vieram com as palavras guerrilla, cartel e marijuana. Quanto à gastronomia, os americanos herdaram coisas boas como jalapeño, guacamole, fajita, huevos rancheros e sangria, só para citar alguns. Prefere mojito e nachos? ¡Buen provecho!

Evidentemente, pipocam nomes próprios espanhóis em território americano. Pegue um mapa e comprove:Colorado, Montana, San Francisco, San Antonio. Já na cultura, para delírio dos aficionados, a nave espacial rebocadora do filme Alien se chama Nostromo, ou nuestro amo; o nome do navio negreiro no filme de Steven Spielberg é La Amistad, que de amizade não tem nada; e se você é fã do Batman sabe o que ele é: ¡vigilante!

Isso sem mencionar outras expressões popularizadas em filmes e séries. Jack Sparrow usa e abusa desavvy, que significa sabe usted. O cientista de Independence Day se refere ao alienígena capturado comotamale, que significa massa feita à base de milho.  Seja lá qual for a lógica dessa associação, lembro que o tal ET era um pueco grande. Será que é isso? Mas acho que pueco não existe. ¡Ay Dios mio!

Em Friends, há um episódio em que Joey é contratado para divulgar uma colônia masculina. Lembra do nome da tal colônia? ¡Hombre! E em outro episódio a Rachel pensa que tu madre es loca é um elogio. É que sempre tem um latino tentando passar a perna nos americanos para se vingar pelos papéis secundários! ¿Savvy?

Pois os latinos representam o segundo maior grupo étnico dos Estados Unidos, ficando atrás somente dos afro-americanos, apesar de algumas fontes afirmarem o contrário. Sentindo o bafo do Brasil na nuca, o México lidera os índices de imigração ilegal, principalmente para a California. Já a Florida, na costa Leste, é alvo de imigrantes cubanos. Além de tubarões. E de tornados. Por sinal, como é chamado um estrangeiro em situação ilegal? ¡Illegal alien! ¡Por supuesto!

Tem sido difícil para os hispanos vencerem preconceitos e serem aceitos na sociedade americana, principalmente depois que a Gripe Espanhola – trazida da Europa adivinha por quem? – matou mais de 500.000 americanos em 1918, com exceção dos Cullen, é claro. Vai mais mortaduela aí?

A verdade é que alguns deles trilharam caminhos de sucesso. Você conhece o Ramon Estevez? Ele é nada mais nada menos que Martin Sheen, pai do Charlie. E de Andres Arturo Garcia, já ouviu falar? Trata-se de Andy Garcia. Só sei que Gloria María Milagrosa Fajardo García de Estefan virou Gloria Estefan – o que de fato foi um milagro -, que Enrique Martín Morales virou Ricky Martin e que America Ferrera virou Ugly Betty!

Mesmo celebridades com nomes mais holiudianos não escondem sua origem: é o caso de Cameron Diaz (neta de cubanos, sí, sí, sí), Jennifer Lopez (filha de porto-riquenhos, pero que si, pero que no), Christina Aguilera (filha de pai equatorenho, siga la pelota). Mas nem só de Hollywood vivem os imigrantes hispânicos. ¡Viva Carlos Santana!

Aliás, deixe-me aproveitar essa chance para esclarecer: sabe o Babalú, o burrito companheiro do Pepe Legal? Pois Baba Looey é mexicano, mas Quick Draw McGraw é Americano. E ele sabe tanto espanhol quanto você e eu. ¡Fíjate, fíjate, fíjate!

Em resumo, os italianos descobriram a América, os espanhóis a conquistaram, mas foram os britânicos que colonizaram o país. E logo depois foram expulsos – ¡qué mala suerte! E os políticos americanos aprenderam algumas expressões em espanhol a fim de se dirigirem aos seus eleitores, tornando oSpanglish – ou Espanglês, algo semelhante ao nosso portunhol – a língua extraoficial do país. ¡Duela a quien duela!

 

Notas altamente esclarecedoras

Boca Raton é uma cidade na Flórida. Significa Thieves Inlet.

Las Vegas é uma cidade em Nevada. Significa The Meadows.

Armadillo é o mamífero conhecido por tatu, que caracteriza-se pela armadura que cobre o corpo. Significa little armored one.

Bodega significa adega.

No problem-o é uma referência a Arnold Schwarzenegger no filme Terminator 2: Judgment Day.

• Veja como o personagem de Brad Pitt no filme The Mexican pede carona a dois mexicanos em uma caminhonete: I need a lift in your el truck-o to the next town-o!

No way, Jose significa absolutely not, never.

• Tequila é o nome da cidade onde a bebida se originou.

• Margarita é um coquetel feito com tequila, sal, suco de limão e licor de laranja (Cointreau).

• Caramba é uma expressão de surpresa e espanto, eufemismo de carajo.

• Conquistador refere-se aos exploradores espanhóis da época das grandes navegações.

Amontillado é um vinho da região de Jerez, Espanha.

Mojito é diminutivo de mojado (molhado, húmido) e provavelmente refere-se às folhas de hortelã no drinque cubano.

Nachos é o apelido de Ignacio, o cara que inventou as famosas tortinhas de milho.

Buen provecho significa enjoy your meal.

• Vigilante significa watchman. Ser um vigilante é proteger o mundo do crime, mesmo sem permissão da policia.

• Edward Cullen é o personagem principal em The Twilight Saga. Ele escapou da morte pela Gripe Espanhola quando foi transformado em vampiro pelo médico que cuidava dele – desculpe, não resisti!

Ugly Betty é uma série de TV que descreve o dia a dia de Betty Suarez, uma secretária eficiente, mas feia, que trabalha para uma revista de moda.

Fíjate, fíjate, fíjate é um bordão da Chiquinha da série Chaves e foi traduzido por pois é, pois é, pois é.

 

* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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