Educação

Camaros Amarelos, Camisas Violeta

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*Por Cristina Ustárroz

Quem inventou o plural das palavras deveria sentar num canto e pensar no que fez. O –s em plurais como cadeiras, mesas e carros eu até entendo, aceito e assino embaixo. O problema não é o –s. Afinal, é apenas uma letrinha inocente. A dor de cabeça começa quando precisamos de outras letras além do –s. O plural de coração, por exemplo. É corações! Viu? –ão virou –ões! Do mesmo modo, o plural de leão é leões. O de campeão é campeões. Mas o de capitão não é capitões. E os capitães da areia devem estar achando que isso é coisa de hater! Quero dizer, de vários haters!


[Fonte: Brasil247]

Pois o plural de –ão também pode ser –ães. Como em cães. E pães. E cidadães! Perdão, me atrapalhei! É cidadões? Manhê, para que eu quero descer! Diga aí, por que não cidadões? Como corações! Nem quero pensar em tabelião. Muito menos em capelão. Meu anjinho da guarda, me ajude. Taí duas coisas que não adianta fazer em se tratando de plurais: adivinhar e rezar. Ajoelhar pode! 

Mas o que devemos fazer mesmo é escutar. Prestar atenção. Também não seria má ideia conhecer a regra. Ou regras. Assim ó: o plural de nariz é narizes, o de cicatriz é cicatrizes. Ainda mais importante do que conhecer a regra é observar o uso que fazemos do idioma. Às vezes, a regra não produz uma linguagem natural. Quer ver? O plural de cruz é cruzes, certo? Mas quem em sã consciência diz arrozes, gizes e gravidezes? Vocêses?

Porque não ficamos somente com o –s? O plural de mar seria mars, o de flor seria flors, e o de anel seria anels! Não se iluda: isso não vai se criar! Porque respingaria em palavras como lápis, óculos e ônibus. Invariáveis, elas teriam um singular para chamar de seu, algo como lápi, óculo e ônibu. Admito, não seria rima nem solução, e sim suicídio linguístico. Tipo, quem quer assistir a uma partida de têni?

Há uma série de fatores que irão determinar o plural: se a palavra é oxítona, paroxítona ou proparoxítona, se termina em vogal, consoante ou ditongo, se é de origem estrangeira, se é singular terminada em –s ou se é plural sem o –s, se é simples ou composta… Em resumo: é um inferno! Pois, lamento informar, em inglês o plural também pode ser irregular, variável, inevitável, inexplicável e imprevisível. Enfim, infernal!


[Fonte: gunjangrunge]

Abrindo os trabalhos, tem o plural de substantivos que terminam em –o. O plural de piano é pianos, o de radio é radios, e o primeiro milho é dos pintos. Já o plural de tomato é tomatoes e o de potato é potatoes. E tem volcano, cujo plural pode ser volcanos ou volcanoes. Esse não tem erro. Aliás, qual é o plural de vulcão: vulcãos ou vulcões? Desconfio que dificilmente alguém sai vivo depois disso!

Tem ainda o plural de palavras que terminam em –y. O plural de cherry é cherries e o de lady é ladies. O mesmo acontece com skies e activities.  Mas só quando o –y for precedido de consoante. Se vier precedido de vogal, como em day, então o plural fica days. E como em keys. E em monkeys. Por que o plural de navio-escola é navios-escola e o de guarda-joia é guarda-joias? Aqui vai um conselho amigo: se beber, não ouse formar plurais!

Boss fica bosses, fox fica foxes e church fica churches. Faz sentido! Já imaginou bosss, foxs e churchs? Mas stomach fica stomachs! É preciso ter estômago para enfrentar isso. E para formar o plural de palavras que terminam em –f, basta substituir o –f por –ves. Assim ó: wolves, shelves e thieves. Vale para palavras que terminam em –fe: knives, lives e wives. Prefere que eu diga que basta substituir o –f por –v e acrescentar –es? Pronto! Está dito!

Ainda sobre substantivos que terminam em –f, em alguns casos basta acrescentar –s. Então, fica assim: chiefs, cliffs e roofs. E ainda tem palavras que aceitam as duas formas: scarfs ou scarves, dwarfs e dwarves. Pelo menos os dwarves de Tolkien são escritos dessa maneira! Ficou em dúvida? Pergunte aos Sete Anões!

Já o plural de palavras de origem grega ou latina é pão de outra padaria. A terminação grega –is vira –es no plural: crisis/crises, analysis/analyses, neurosis/neuroses. Sabe a banda Oasis? Pois é! A terminação –um (do latim) e –on (do grego) viram –a: datum/data, medium/media, phenomenon/phenomena, bacterium/bacteria, criterion/criteria. Ainda do latim, –a vira –ae: alga/alga, larva/larvae; e –x vira –ces: appendix/appendices. E as que terminam em –us viram –i: cactus/cacti, campus/campi e alumnus/alumni. Para nossa alegria, cactuses, campuses e medias já andam desfilando por aí e outras irão se unir ao grupo logo – mesmo que muita gente ainda torça o nariz! Enquanto isso, em português, qual é a forma correta: pãozinhos ou pãezinhos?

O lado bom é que alguns substantivos não mudam no plural: fish fica fish, sheep fica sheep e deer fica deer – entendeu, my dear? O lado ruim é que quase nunca precisamos dessas palavras – a não ser que você seja pescador, pastor ou caçador. Mas quem viaja precisa de baggage ou luggage, money, accommodation e information – todas sem –s, pois não possuem forma no plural. Por outro lado, há também substantivos que são considerados plurais mesmo não terminando em –s, como police, staff e crew. Diga the police are coming! E everybody é sempre singular: everybody is happy!

Só não se engane: o –s em news – notícia – não tem nada a ver com plural. Sendo assim, new não é o singular de news. New é um adjetivo e significa novo. Nada de dizer a good new: diga good news! Já outros substantivos passam por uma verdadeira metamorfose ao migrar do singular para o plural: person vira people, child vira children, foot vira feet e mouse vira mice. Exceto para o mouse do computador – esse pode ser mouses. Entendedores entenderão!


[Fonte: storageteam]

Falando em engano, não me enganei quando escrevi camaros amarelos, camisas violeta no título. Cores que representam objetos não se modificam no plural. Não existe nenhum objeto chamado amarelo, mas existe uma florzinha chamada violeta. O mesmo acontece com rosa. E com laranja. Já em inglês, as cores, quando usadas como substantivos, podem sim ter seu lugar ao sol no mundo dos plurais. Vai colocar a roupa suja na máquina? Não esqueça de separá-las por cor: the reds, the blues e the whites.  E cá entre nós: se você dirige um camaro amarelo e usa camisa violeta, tire do castigo o cara que inventou o plural e vá você pensar no que fez.

 

Notas altamente esclarecedoreas

A formação do plural de palavras terminadas em -ão tem a ver com sua etimologia. Palavras espanholas que terminam em –ano/-anos (hermano/hermanos) equivalem ao nosso plural –ãos. Palavras espanholas que terminam em –on/-ones (leon/leones) equivalem ao nosso –ões. Palavras espanholas que terminam em –án/-anes (alemán/alemanes) equivalem ao nosso -ães. Quer mais? Veja por aqui

Capitães da Areia é um romance de Jorge Amado escrito em 1937.

“Hater“ significa aquele que odeia.  

Vou dar a barbada: o plural de cidadão é cidadãos, o de tabelião é tabeliães, o de capelão é capelães, e o de vulcão, pasmem, pode ser vulcãos ou vulcões!

Peguei um trecho emprestado do Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade: “Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração.“

J.R.R. Tolkien é o autor de The Lord of the Rings e The Hobbitt.

Mais informações sobre plurais: http://en.wikipedia.org/wiki/English_plurals

Plural de palavras de origem grega ou latina você pode conferir por aqui, ou por aqui ;-]

 

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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