Educação

Brazinglish, o Portinglês!

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Por Cristina Ustárroz*

Li em algum lugar que o número de estrangeiros falando inglês é hoje três vezes maior do que o número de pessoas que têm o inglês como língua materna. Sem dúvida alguma, este cenário global nos torna agentes transformadores do idioma de Shakespeare, pois não estamos apenas observando o inglês como meros espectadores. Nem estamos absorvendo sua cultura como quem não quer nada. Ao contrário, estamos ativamente transformando a língua inglesa para que ela se ajuste a nossa realidade e melhor atenda as nossas necessidades. Se essa transformação é positiva ou negativa, só o tempo dirá. De qualquer modo, não estamos sós nesse empreendimento linguístico: russos, indianos, chineses, japoneses, franceses, italianos, espanhóis, enfim, todos nos valemos do inglês para alcançar nossos objetivos, sejam eles de ordem cultural, comercial ou política. E a globalização do inglês está modificando o mundo na mesma proporção em que o mundo globalizado está modificando o inglês.

Na verdade, o impacto da língua inglesa no nosso idioma não é novo. Eu disse no nosso idioma? Perdão, eu quis dizer em todos os idiomas. Esse impacto tem sido contínuo e crescente, pois as palavras não precisam do consentimento de ninguém para viajar. Simplesmente atravessam oceanos e cruzam fronteiras, de um continente a outro, de um país a outro, de uma boca a outra. Os brasileiros estão viajando mais? As palavras também! A troca de vocábulos entre os idiomas é característica natural das línguas vivas. Afinal, é isso que elas fazem: interagem dinamicamente. Quem tem empresta. Quem não tem pede emprestado. Seja lá o que for. Palavras, por exemplo. Alguém aí sabe dizer de que idiomas derivam as palavras paisagem, pizza, colorado e geografia? E diesel, macaco, almanaque, mandioca e chá?

Crescentes também são a curiosidade, o interesse e a visão positiva que os estrangeiros têm mostrado com relação ao Brasil. E é por isso que brasileirismos como feijoada, banana, samba, carnaval, bossa nova, caipirinha e cachaça já cravaram bandeira em dicionários de língua inglesa – sim, o nosso português também empresta palavras para o inglês. Mas, como ainda não estamos com essa bola toda, voltemos aos anglicismos do nosso dia a dia. Angli o que?

Anglicismos! É como são chamadas as palavras em inglês introduzidas em outro idioma para suprir a necessidade de designar algo que ainda não exista nele. Pelo menos é o que dizem diversos livros de linguística, além da Wikipedia – ou devo dizer Wikipédia? Cá entre nós, sabemos que os anglicismos transitam livremente no nosso vocabulário e que a preferência por palavras em inglês em detrimento de palavras em português não é novidade aqui no Brasil, mesmo quando o português dispõe de equivalentes perfeitos. Quer você ache esse uso ridículo ou não, o fato é que algumas vezes elas desembarcam intactas em nosso território e pegam facilmente, especialmente quando traduzi-las dá um trabalhão danado e o resultado não agrada. Ou seja, quando a versão em inglês é mais direta.

É o caso de spoilers (revelações do enredo de filmes e livros), upload (transferência de dados de um computador local para um servidor), no-show (não comparecimento sem comunicado prévio), overbooking (excesso de reservas/sobrevenda), fitness (condicionamento físico), royalties (valores pagos por direito autoral), upgrade (melhoria em equipamento/elevação de status) e jet lag. Você prefere dizer “cansaço devido à mudança de fuso horário depois de longos voos internacionais”? Será?

Jetlag Illustration
“Puxa, que cansaço devido à mudança de horário depois de um longo voo internacional!”

Elas também pegam rapidamente quando mantê-las na sua forma original confere status social e cultural privilegiado ao falante, como fashion (moda), home theater (cinema em casa), revisited (revisado/revisitado), playground (pracinha para crianças em condomínios) e timing (senso de oportunidade). E, obviamente, quando elas se referem a coisas que ainda não temos, como app (de application, forma abreviada para software aplicativo), smartphone (telefone inteligente), além de coaching, rating e branding. Você prefere “ações em gestão ou liderança para ajudar os colaboradores a trilharem o seu próprio caminho de autodesenvolvimento”, “nota de risco”, e “trabalho de construção e gerenciamento de uma marca junto ao mercado”? Sei não!

Frequentemente, nos apropriamos da escrita destas palavras e geramos uma grafia mais parecida com a do português. Trocando em miúdos, elas são aportuguesadas. Adaptam-se para não morrer. Algo como quando em Roma, faça como os romanos. É o caso de pique-nique, uísque e futebol, ou football, além de todas as palavras sobre esse esporte que, vale lembrar, surgiu na Inglaterra. Para nós goal é gol, ball é bola, club é clube, e stadium é estádio – vá lá, a pronúncia resvalou um pouco no jeitinho brasileiro. E mais: penalty é pênalti e corner é córner – apesar de eu escutar penalidade máxima e escanteio na maioria das vezes. Esqueça o que eu recém afirmei sobre preferirmos a versão mais curta. Embolei o meio de campo? Então pegue leve e fique com a versão que mais lhe agrade.

Inúmeras vezes, ajustamos a pronúncia dos anglicismos ao nosso sistema fonológico. Ou aos nossos ouvidos! Falando neles, você já deve ter ouvido falar naquele esporte chamado squash – cuja pronuncia em inglês é parecida com wash e watch, mas no Brasil squash segue a pronúncia de ash e slash. Não adianta arrancar os cabelos! Foi assim que pegou. Ainda, alteramos grafia e pronúncia em freelance, que significa “trabalho avulso e sem vínculo empregatício”: virou frila. E o infinitivo dos verbos também foi adaptado para o português: deletar (to delete), printar (to print), upar (to upgrade), lincar/linkar (to link), plugar (to plug), tuitar (to tweet) e brousear (to brouse), só para lembrar alguns. É perda de tempo querer reverter esse processo. Caiu na rede, é peixe!

Há situações em que – vamos combinar – nossos ouvidos nos traem e acabamos errando a mão: mouse pad virou pad mouse, ou, surpreendentemente, pé de mouse. Confundimos personal trainer, a pessoa, com personal training, o treino (exemplo: o meu personal training tem muita paciência). Self-service (autoatendimento) virou self-serve, ou até serve-serve; babysitter (quem cuida de criança) virou babysister (a irmã da criança); e barbecue (o “churrasco” dos americanos) virou barbecure. Os adeptos do poker, digo, pôquer poderão achar que bati com a cabeça, mas o que conhecemos por street flash é na verdade straight flush (sequência de mesmo naipe), e fulla ou fullen é full hand (uma trinca e um par). Isto não é um bluff, digo, blefe. Não esqueça: minha casa, minhas regras.

Falando em regras, ou na falta delas, no caso de palavras compostas, como shopping mall, temos a tendência a reduzi-las optando por uma das palavras somente, ora privilegiando a primeira, ora a segunda. E você pergunta: qualquer uma delas está correta, não? Correta? Sempre! Apropriada? É aí que o bicho pega! Explico: os americanos, quando vão as compras, vão ao mall. Nós vamos ao shopping. Não é uma questão de certo ou errado. É uma questão de uso. Aqui no Brasil, happy hour reduziu-se a happy, ao contrário de rush hour, que ficou hora do rush. Mailing list ficou mailing, e duty free shop (loja com isenção de taxa de importação) ficou free shop. Quanto ao nome do restaurante, os estrangeiros jantam no Outback Steakhouse; nós, no sertão australiano – é isso que outback significa. Não há método, nem critério.

Já no caso de smoking fizemos uma verdadeira mágica. O traje semiformal masculino para eventos noturnos, também conhecido como black tie, chama-se tuxedo em inglês. Quer a versão curtinha? Diga tux, então! O termo que utilizamos em português deriva de smoking jacket, um roupão elegante que os homens de antigamente vestiam para que o cheiro do cigarro, charuto ou cachimbo não invadisse as outras roupas.


Onde está o seu smoking, digo, tuxedo?

Não vou me meter a fazer profecias, mas sinto que esta influência pode trazer consequências negativas se não nos apressarmos em explicar aos outros falantes de língua inglesa que para nós uma palavra é exatamente outra palavra. Entendeu? Nós dizemos folder, eles dizem flyer ou brochure. Nós dizemos outdoor, provavelmente de outdoor advertisement; eles, billboard. No rastro de outdoor, criamos o busdoor ou outbus (peça de publicidade na parte traseira de um ônibus); eles dizem bus advertising. Nós temos close, eles têm closet; e campsite virou camping. Eles têm delivery boy, ou delivery person; nós temos motoboy. Nenhum sinal de motoperson. Eles não fazem ideia do que seja um nobreak? Diga battery backup e eles entenderão.

Seguidamente enfrentamos situações típicas de nossa cultura local e precisamos explicá-las em inglês. É quando desafiamos nossa criatividade linguística ao máximo. Se babysitter significa quem cuida de criança, então, por analogia car sitter é o nosso flanelinha! A expressão office boy também não existe em inglês, apesar de ter sido criada aqui. Mesmo longe de ser a mesma coisa, tente office assistant.

Você acha que todas essas palavras são mal empregadas ou mal pronunciadas no Brasil? Relaxe! No fim das contas, ninguém nos consultou. Não deu tempo. Brincadeiras à parte, o inglês assume esse caráter regional em todos os idiomas unicamente para sobreviver. E o daqui já tem até nome: Brazinglish! Prefere portinglês? Eu, particularmente, prefiro flash drive a pen drive. Ridículo? Pode ser, mas, como diria o professor Cláudio Moreno, e o Professor Celso Pedro Luft antes dele, e os outros com isso?

Notas altamente esclarecedoras
Paisagem vem do francês; pizza, do italiano; colorado, do espanhol; geografia, do grego; diesel, do alemão; macaco, de idioma africano; almanaque, do árabe; mandioca, do tupi-guarani; e chá, do mandarim.
• Ainda criança, o brasileiro Charles Miller viajou para a Inglaterra. Ao retornar ao Brasil em 1894, trouxe na bagagem a primeira bola de futebol e todo um conjunto de palavras em inglês.
• Em 1860 uma empresa de confecção costurou um casaco para o Príncipe de Gales vestir em jantares informais. Um milionário americano ficou tão impressionado com o resultado que encomendou um igualzinho. Ao voltar para Nova York, usou o seu novo casaco no Tuxedo Park Club, e a moda pegou. Dizem que essa é a origem de tuxedo
• Além de Brazinglish, hoje temos Hinglish (uma mistura de hindi e inglês), Japlish (japonês e inglês), Spanglish (espanhol e inglês), Frenglish (francês e inglês), Itaglish (italiano e inglês), Denglish (alemão e inglês), Yinglish (ídiche e inglês)…
Cláudio Moreno é professor, escritor, colunista e ensaísta gaúcho. Celso Pedro Luft (1921-1995) foi professor, gramático, filólogo, linguista e dicionarista. Também gaúcho. Os dois são tudo de bom!

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Cristina Ustárroz
A professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

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    1 Comment

    1. Sempre adorei estudar inglês, e eu era aquela aluna chata do curso de idiomas que queria responder todas as perguntas do professor, e participar de todas as atividades… Algo na sintaxe dos "native speakers" me encanta.

      No entanto, considero insuportável o anglicismo desnecessário de cunho exibicionista. Aquelas pessoas que inventaram de trocar tigela por "bowl", iniciar por "inicializar", e, cúmulo do exibicionismo, caso por "case".

      Por outro lado, em casos de encurtamento do termo, sou altamente favorável à adoção de termos estrangeiros, contanto que devidamente adaptados à nossa escrita. Caso do meu querido leiaute, que já posso usar nas aulas de design (que não vejo a hora de virar dezáine!)

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