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BlogA Entrevista: Evelyn Eisenstein e Cristiano Nabuco de Abreu

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Passamos tanto tempo conectados, seja via computador, celular ou outros dispositivos, que esquecemos o impacto deste comportamento em nossas vidas, em nossa saúde e até mesmo em nossas relações sociais. É este o tema do livro Vivendo esse Mundo Digital, Impactos na Saúde, na Educação e nos Comportamentos Sociais. Conversamos com Evelyn Eisenstein e Cristiano Nabuco de Abreu, dois dos autores reunidos no livro – que conta com profissionais de campos de atividades bem variados, como educação, saúde física e mental, comunicação e direito. Confira abaixo nossa conversa:

1) Em países como Japão e EUA, já há uma grande preocupação em relação aos viciados em tecnologia; nesses locais, há, inclusive, o desenvolvimento de tratamentos para isso. Você acredita que o Brasil possa seguir essa mesma tendência?

Nabuco: Essa é uma tendência que vai se manifestar em todo o mundo. Aqui no nosso centro [Grupo de Dependências Tecnológicas do Programa Integrado dos Transtornos do Impulso – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP], nós estamos mudando a denominação de dependência de internet para dependência tecnológica. O que acontece: dependência tecnológica envolveria todos os tipos de utilização de tecnologia. Não só a internet, mas o seu uso por meio de plataformas móveis como telefone celular e os tablets. Essa denominação é mais extensiva, mais inclusiva. Todos os pesquisadores já estão usando esse termo mais genérico. Os tratamentos hoje existentes ajudam o indivíduo a se desassociar da tecnologia, mas ainda não tenho conhecimento de um tratamento que tenha um protocolo, com início, meio e fim.


Cristiano Nabuco é Psicólogo e Coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa de Transtornos do Controle dos Impulsos (PRO-AMITI) do IPq-HCFMUSP. Ex-presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC)
Fonte: Divulgação

2) É comum que buscadores de Internet sejam a primeira fonte de informação para pessoas que começam a sentir algum mal estar e querem um diagnóstico. É o caso do Google, já chamado por aí de Dr. Google. Quais os benefícios e os malefícios deste tipo de comportamento para a área da saúde?

Evelyn: É muito arriscado se “consultar” em sites que não sejam comprovadamente corretos, cientificamente, ou aprovados por sociedades médicas. A pessoa tem a tendência a negar fatos e dados de sua própria história de vida e ressaltar outros detalhes que lhe incomodam mais, sem uma percepção corporal e, sendo assim, muitas distorções podem ocorrer. Pior ainda, ela pode se “medicar” com remédios ou “poções e dietas mágicas” contraindicados ou, inclusive, comprar medicamentos, drogas ou anabolizantes que podem ser falsificados. Por outro lado, existem também redes de pessoas que se unem e trocam informações sobre alguma doença rara ou mesmo comum, como asma ou diabetes, e, assim, se sentem com mais suporte social e menos isoladas. Mas, sempre, a procura por um médico que tenha seu registro atualizado no Conselho Regional de Medicina é a melhor solução em vez de qualquer informação de Internet.


Google não é médico, pessoal!
Fonte: Jezebel

3) Fenômenos como sexting são apenas expressões naturais da sexualidade em uma nova plataforma que antes não existia, ou ocorrem apenas porque as novas mídias incentivam e estimulam esses comportamentos?

Evelyn: Sexting é o compartilhamento de textos simples, curtos, diretos com ou sem imagens de teor sexual, e geralmente via telefones celulares, comportamento muito comum entre adolescentes. O termo é derivado de sexual messaging, em Inglês, que significa “mensagem sexual”. Atualmente, a transmissão de mensagens com teor sexual pode ser considerado como pornografia e como crime, segundo os artigos 240 e 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Muitos adolescentes acham que é só “uma brincadeirinha engraçada” e não entendem as repercussões desse ato impulsivo e agressivo, e o desrespeito ao corpo e à sexualidade do outro, podendo ser considerado como um ato de cyberbullying. Importante ressaltar também que a expressão “natural” do desenvolvimento da sexualidade de adolescentes não passa nem perpassa pelas “plataformas” que são usadas em todas as mídias, televisivas ou digitais, como um “produto de consumo” ou mesmo de “exploração comercial sexual” do corpo e da sexualidade dos adolescentes.


Evelyn Eisenstein é médica e professora associada de Pediatria e Clínica de Adolescentes da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Fonte: Divulgação

4) Muitas escolas propagandeiam que já entraram na era digital, mas apenas trocaram os livros por iPads. Como você vê o futuro da educação nesse mundo digital? O modelo de ensino não deveria mudar?

Evelyn: Sim, tanto o modelo como os paradigmas de ensino de muitas escolas. Livros e iPads são meios de transmissão de informações, mas educar é muito mais do que “adestrar” crianças ou adolescentes a utilizarem programas na Internet para “fazer o dever de casa”. Professores precisam também ser capacitados no uso de novas tecnologias e saberem se relacionar com crianças e adolescentes, como pessoas ou humanos que estão num processo de crescimento, desenvolvimento e maturação cerebral, e não simplesmente maquinas ou robôs que digitam informações. A relação educador-educando ainda é ainda da maior importância!


iPad não é sinônimo de uma educação tecnológica
Fonte: AppleNext

5) As pessoas estão se conscientizando sobre o poder que as grandes empresas de tecnologia têm ao coletar dados de seus usuários, mas você acredita que possa haver no futuro uma real preocupação com a privacidade? Você acha que usuários podem deixar de usar determinadas redes por segurança? 

Nabuco: Seria muito interessante se as pessoas começassem a se preocupar com a questão da privacidade, porque ela é muito mais séria do que a gente imagina. Quando nós nos relacionamos por meio da realidade concreta, como se por exemplo eu estivesse na sua frente agora, a nossa conversa seria “regulada” pelo fato de eu falar e você balançar a cabeça, isso, na verdade, cadencia a conversa, quando eu falo e você balança a cabeça vagarosamente, você está pontuando a velocidade da minha fala, eu acelero ou diminuo a minha fala a partir disso. Quando você faz um “sim” várias vezes seguidas quer dizer que você quer interromper minha fala e entrar no assunto. A gente tem uma forma de signos ou truques para regular essa interação; na internet não temos isso, é mudo. Uma forma de o indivíduo assegurar que está fazendo uma boa apresentação dele mesmo para o outro na Web consiste em exagerar a mão na intimidade, porque assim você obrigatoriamente cria um grau de proximidade maior. É uma tendência quase inconsciente das pessoas. Isso acaba criando esse exagero, essa abertura desmedida de coisas que você não falaria no seu cotidiano. Acredito que as pessoas vão, possivelmente, à medida que tiverem surpresas desagradáveis, começar a regular a quantidade de informação. 

Existem já em algumas empresas e em alguns países, como nos Estados Unidos, o que a gente chama de biografia virtual. As empresas, antes de contratar, fazem um apanhando de tudo que você publicou, mesmo de mensagens de Facebook ou e-mail, e isso vai para os empregadores. Assim, eles têm uma visão clara de quem é você, das suas preferências, do que você publica, quem você segue, o que, para eles, é muito mais efetivo do que uma entrevista de emprego, na qual você pode manipular as respostas. Isso vai criar mais para frente um problema muito grande para essa geração, que está postando tudo o tempo todo. Ainda vai passar algum tempo para que as pessoas atentem que a internet tem memória: você pode apagar da sua frente, mas não da rede.

Viu como nossa vida digital vai muito além de receber notificações de redes sociais, responder e-mails, postar no Facebook e ver vídeos que estão bombando no YouTube? Pois bem, Vivendo esse Mundo Digital é um livro que mostra que essa vida, como a rapadura, é doce, mas não é mole, não. Mas como é o que temos, aproveite! 🙂

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