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BlogA Entrevista: Denis McQuail

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Se você é um estudioso da comunicação ou se interessa pela mídia e tudo que está por trás das notícias, já deve ter ouvido falar de Denis McQuail, um teórico norte-americano da comunicação de massa, professor emérito da Universidade de Amsterdã, na Holanda, e professor visitante no Departamento de Política na Universidade de Southampton, na Inglaterra. Desde 2006, o reconhecido mestre dá nome ao Prêmio Ascor Denis McQuail, criado em sua homenagem e que é concedido anualmente ao melhor artigo sobre teoria da comunicação pela Amsterdam School of Communication Research (Ascor).

Por meio do selo Penso do Grupo A, o autor tem dois livros publicados, Teorias da Comunicação de Massa, também em e-book, e Atuação da Mídia, sobre o qual falamos com ele. Confira abaixo a entrevista:


Denis McQuail em foto de 2011
Fonte: icahdq.org

O livro Atuação da Mídia aponta alguns valores essenciais que deveriam regular a imprensa em uma sociedade democrática. Em um sistema guiado por interesses econômicos, quais princípios devem ser observados na busca por uma imprensa que contribua para a sociedade?

Destaco alguns pontos. Em minha opinião, a mídia (a “imprensa”) deveria ser:
1. Editorialmente independente das preferências e interesses dos donos o tanto quanto possível e transparente quando essa independência não for totalmente atingível. Esse princípio exige coragem de publicação, pois alguns assuntos podem ser contrários aos interesses de poderosos.
2. Jornalisticamente profissional no que diz respeito à conduta ética, à integridade e à honestidade de propósito, à veracidade de conteúdo e à prontidão em responder tanto à sociedade quanto aos donos.
3. O mais plural possível em diferentes aspectos: em relação às formas de apropriação bem como à apropriação de fato; relativa a fontes e conteúdo que refletem a opinião e os interesses da sociedade. A diversidade pode ser atingida por meio de diferentes tipos de publicações ou pluralidade de conteúdos nos principais meios de comunicação.
4. Atenta à importância do papel da imprensa na sociedade civil (servir ao bem comum assim como a objetivos privados) e às possíveis consequências de uma divulgação (ou do silêncio).

No Brasil, cada vez que a mídia é criticada, os produtores sentem-se censurados e ameaçados em sua liberdade de expressão. Como a sociedade pode avaliar a mídia sem ameaçá-la?

O Brasil não é o único país onde esse comportamento acontece e, de certa maneira, os produtores estão certos em reagir assim. No entanto, a imprensa não tem “propriedade” exclusiva das liberdades envolvidas, e elas não deveriam ser abusadas ou negadas aos outros. Sem dúvida, a liberdade de imprensa é garantida tanto para propósitos públicos quanto privados. Um caminho para solucionar essa questão é por meio da pressão social sobre a mídia, com o objetivo de gerar um senso de autoresponsabilidade no que diz respeito às reivindicações da sociedade, seja por alguns incentivos ou por sanções que não chegam à compulsão, à censura ou à punição. Nesse cenário, o incentivo ao profissionalismo desempenha um importante papel. Algumas formas de intervenção pública em estruturas midiáticas podem ser justificadas pelos efeitos públicos benéficos (ampliação da diversidade de acesso, por exemplo). Alguns danos específicos atribuídos à mídia podem ser evitados por meio de ações que não são necessariamente direcionadas à mídia em geral, mas visam a proteger outros valores ou direitos (como privacidade, reputação, dignidade, tolerância, benefícios).

Uma das maiores preocupações da sociedade, tanto judicialmente quanto legalmente, é em relação à qualidade da informação disponível às crianças. Como seria uma mídia responsável no que diz respeito à infância?

Essa é uma questão abrangente que vai muito além do papel da mídia. Em termos gerais, a abordagem e a política da imprensa devem ser guiadas pela relevância das instituições responsáveis pela educação de crianças, família, igreja e política. Isso implica, muitas vezes, subordinação econômica e autoimposição de alguns limites de liberdade. Em matéria de infância, limites para a liberdade sobre questões específicas são alcançados, e frequentemente aceitos, em diversos países. A questão mais difícil é quanto a como garantir positivamente que os elementos em falta nas provisões para as crianças (ou a sua qualidade) possam ser bem feitos quando esses não satisfazem critérios comerciais.

Como você avalia o impacto das mídias sociais e da internet na percepção do público em relação à qualidade das informações da imprensa?

Minha impressão é que a internet ainda não se desenvolveu até esse ponto em que há uma imagem clara ou um perfil de qualidade. A percepção geral dos usuários (sempre aumentando em número) é bastante positiva, mas há incertezas em relação à confiabilidade das informações e à confiança no que está disponível. Muitos usuários permanecem próximos de fontes conhecidas e confiáveis, mantendo um laço com experiências passadas. Qualidade, em realidade, é extremamente variável, não há uma garantia institucional de qualidade, de responsabilização ou regulamentação. Pela Europa, pesquisas (como, por exemplo, Eurobarometer) demonstram graus bastante moderados de confiança na internet, por vezes maiores do que na imprensa tradicional. Já as mídias sociais permanecem largamente como algo que é usado na esfera privada, mas novas formas e usos estão emergindo.

Na sua opinião, qual pode ser o maior benefício para a sociedade, em longo prazo, de ser estabelecido um processo democrático de avaliação da mídia?

Inúmeros benefícios estão potencialmente disponíveis, supondo-se que esses processos possam levar a algumas consequências e que dependem de outras condições nem sempre tangíveis. Os benefícios incluem:

• Um grande público que é bem informado sobre as principais questões do dia e que é capaz de formar uma opinião com base em informações confiáveis.
• Uma relação entre política e mídia, que pode ser ao mesmo tempo cooperativa e adversária, conforme o necessário para o bem público.
• Um espírito mais participativo e ativo entre os atores na esfera pública, dos cidadãos e da mídia.
• Uma atmosfera na qual a mídia pode se beneficiar de relações mais estreitas e mais assertivas com seus públicos.

Ficou curioso a respeito do pensamento Denis McQuail? Então conheça os dois livros que o selo Penso do Grupo A publicou: Teorias da Comunicação de Massa, também em e-book, e Atuação da Mídia.

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