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Você viu? SUS passa a tratar transtorno bipolar

Há alguma semanas, o Governo Federal anunciou que o Sistema Único de Saúde passará a tratar o transtorno bipolar (TB), por meio da publicação de um protocolo de diretrizes para o diagnóstico e a disponibilização de cinco medicamentos utilizados no tratamento da doença. Estima-se que, apenas esse ano, as novas medidas irão atingir cerca de 270 mil brasileiros afetados pelo transtorno. O número não é pequeno, mas você sabe o que é, afinal, bipolaridade? O psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, um dos autores de Aprendendo a conviver com o transtorno bipolar, da Artmed Editora, explica: essa é uma doença de humor que envolve crises de depressão e de euforia ao longo da vida. No entanto, muitas vezes as pessoas acreditam que alterações agudas de humor durante o dia caracterizam a doença, ou a confundem com depressão, estigmatizando esse transtorno. As coisas, porém, não são bem assim.

A obra aborda as perguntas frequentes feitas por pessoas que têm o transtorno e por seus cuidadores. Danielle Soares Bio, neuropsicóloga e também coautora, explica que as mudanças de humor são comuns no nosso cotidiano, em que enfrentamos tristeza, alegria, raiva, irritação e outros sentimentos que dão tonalidade à nossa vida afetiva. Esse quadro, sozinho, não caracteriza bipolaridade, pois são mudanças de curta duração e não afetam a vida do indivíduo saudável, que pode modular seu estado de humor, saindo do estado basal da tristeza para sentir bem estar. No caso do TB, há a presença de vários sintomas e os episódios das duas fases do transtorno, depressão e mania, duram, respectivamente, cerca de 15 dias e de 4 a 7 dias. As mudanças no comportamento do indivíduo são duramente sentidas por ele e pelas pessoas com quem convive, deixando marcas que envolvem não apenas sua condição psicológica, mas também financeira e em sua reputação, além de prejudicar sua vida afetiva. Danielle salienta, ainda, que esses episódios podem vir a durar meses, mas, com o tratamento adequado, eles se tornam menos frequentes e, quando acontecem, menos duradouros. Ricardo Moreno completa dizendo que a fase da depressão costuma ser mais longa que a mania quando sem tratamento, e apresenta risco de morbidade. 

A diferença entre as duas fases do transtorno é enorme. Antigamente, relembra Ricardo Moreno, era chamada de psicose maníaco-depressiva, como referência aos dois estados de humor. A fase depressiva é muito semelhante ao estado apresentado pelo paciente diagnosticado com transtorno depressivo, que é mais recorrente que o TB, tais como humor deprimido, incapacidade de sentir prazer nas atividades do dia a dia, sentimento de vazio ou tristeza, fadiga e dificuldade de concentração. No entanto, a fase depressiva do TB tem suas peculiaridades, como a hipersonia (excesso de sono) e o aumento da fome e, por conseguinte, do peso do paciente. O indivíduo que tem depressão pode ser tratado apenas com antidepressivos, o que não é indicado para o paciente com bipolaridade, que deve fazer uso de estabilizadores de humor. Afinal, os antidepressivos podem desencadear o outro estado do transtorno bipolar: a mania.  

Na fase da mania, o paciente apresenta um comportamento impulsivo e expansivo, além de grande irritação, aceleração dos pensamentos e aumento da energia. Nesse estado, o indivíduo pode apresentar frieza, arrogância, autoestima aumentada, egocentrismo e impaciência, tornando exageradamente otimista e assumindo riscos para sua saúde. Torna-se extremamente desinibido, podendo exibir-se socialmente de forma inadequada. Há o impulso para o consumo de drogas e para o sexo, bem como para os esportes radicais. O paciente não tem senso crítico sobre sua condição e acaba se tornando pouco funcional, inconveniente e provocativo, voltado apenas para saciar suas necessidades de liberdade, contato físico e brigas, por exemplo. Pode, ainda, começar a jogar ou consumir muito, ainda que não tenha condições financeiras para tal.  Existe também uma fase denominada hipomania, com sintomas mais brandos de mania, e que a substitui no TB tipo II, diferenciando-o do tipo I. No total, existem sete tipos de transtorno bipolar catalogados, definidos pela forma como os estados se apresentam ou pela origem do problema.


O paciente bipolar alterna entre as fases de mania e depressão. 
[FONTE:Espaço Holos]

As pessoas que apresentam sintomas de transtorno bipolar, assim como ocorre com outros transtornos de humor, costumam ser estigmatizadas. Para Danielle Bio, isso é fruto do medo do desconhecido e da desinformação. De acordo com ela, um estudo da Federação Mundial de Saúde Mental revelou que cerca de 71% dos pacientes sentem que não devem revelar sua doença para as outras pessoas, para não serem julgados. Ela ainda afirma que outro estudo, realizado por seu grupo de pesquisa na Universidade de São Paulo revelou que existem muitas crenças errôneas sobre a doença, que variam desde acreditar que esse é um problema meramente psicológico até a crer que a cura é possível, passando pelo temor de a medicação causar dependência ou prejudicar o indivíduo. Existe uma estimativa de 1% da prevalência de TB na população, considerando suas formas clínicas, mas uma estimativa de até 8%, se considerados todos os espectros da doença. Ou seja, muitas pessoas enfrentam o transtorno, como reforça Ricardo Moreno, e precisam de acompanhamento médico, a fim de evitar suas perdas sociais e afetivas. 

O oferecimento de tratamento para TB pelo SUS, portanto, indica uma nova fase, em que a doença pode perder o estigma causado pela falta de informação, tornando-se, no imaginário popular, finalmente um transtorno que não tem apenas fundo emocional. Assim como a diabetes, a hipertensão e algumas cardiopatias, o transtorno bipolar é uma doença crônica ainda sem cura, e seus sintomas devem ser tratados com a medicação adequada e, acima de tudo, com seriedade. 

 

 

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