Tirar a letra

Postado por @adim em 30/ago/2016 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*

Dizem que só escutamos o que queremos ouvir. Pois o menininho cantava: ♫era um maroto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones♪. Bonitinho, não? Mas se você conhece essa música sabe que a palavra na letra não é maroto. É garoto! E o engano se justifica: entre garoto e maroto há somente uma letra diferente, o que gera um convite, ou uma indução, ao erro de audição. Confesse: quantas vezes isso aconteceu com você?

Comigo, várias! Só que não sou a única! É como o ♪Vital e sua moto♫! Uma galera com ouvidos menos privilegiados cantava ♪mais que um leão feliz♫ no lugar de ♫mas que união feliz♪. Falando em leão, uma geração inteira sem ouvidos afinados cantava ♫the lion sleeps tonight, a whim away a whim away, a whim away♪. Só que a letra é ♫awimbawe, awimbawe, awimbawe♪! Não é muito diferente, certo? Mas enquanto uns vão ♪trocando de bikini sem parar, outros vão tocando BB King sem parar♫.

E sem parar cantava quem não tinha a letra de Purple Haze, de Jimi Hendrix, na capa do vinil: ♫excuse me while I kiss this guy♪! Só que a letra é ♪excuse me while I kiss the sky♫! Será que a dicção do cantor não era lá essas coisas? Ou será que tem uma pitada de desejo nosso envolvido no modo como entendemos uma letra? Certamente, prefiro kiss this guy! Além de ser uma versão mais plausível.

Por sinal, se os fãs de Hendrix viajavam enquanto tiravam de ouvido as letras das músicas do ídolo, os fãs dos Beatles, aparentemente com ouvidos entupidos, inventavam coisas que não têm pé nem cabeça: sabe Lucy in the Sky with Diamonds? Pois ♪the girl with kaleidoscope eyes♫ de repente virou ♫the girl with colitis goes by♪! Não que kaleidoscope eyes faça algum sentido. É como ♫entrei de caiaque no navio! Entrei, entrei, entrei pelo cano♪! Ou não! Mas que assassinaram a letra, isso sim! Que engano!

 

 

Sempre me perguntei se as pessoas realmente prestam atenção no que estão cantando em inglês. Ou se fazem ouvidos de mercador. A resposta veio quando uma geração de veganos famintos celebrou ♪this is the dawning of the age of asparagus, age of asparagus, asparagus! Asparagus♫! O que era para ser um glorioso aquarious virou um insosso asparagus. Trucidaram a música, mas ficou divertido! Ou ficou divertido, mas trucidaram a música!

A propósito, o que dizer sobre a canção Tiny Dancer do Elton John? ♫Hold me close young tiny dancer♪ virou ♪hold me closer Tony Danza♫. Entende-se a confusão: o ator Tony Danza arrancou suspiros dos dois lados da torcida. Agora sente-se ou vai cair de quatro: ♫smoke on the water, and fire in the sky♪ para alguns é ♪slow motion Walter, the fire-engine guy♫! Os caras do Deep Purple devem ter ficado deep purple mesmo!

 

 

Por falar em água, vejamos a próxima: ♫I can see clearly now Lorraine has gone♪. Que Lorraine has gone, que nada! O certo é ♪the rain is gone♫! Percebe a semelhança? Lorraine e the rain! Mas, azar! Era assim que os fãs cantavam. Ou ainda cantam. E não me refiro apenas aos fãs brasileiros: do mesmo modo que nós, muitos gringos têm cera no ouvido! Com cera ou sem cera, há uma distância muito grande entre o que é dito e o que é ouvido. Ou compreendido.

A verdade é que nossos ouvidos nos traem. Veja o que aconteceu com The Dancing Queen, do grupo ABBA: ♫see that girl, watch her scream, kicking the dancing queen♪ virou ♪see that girl, watch that scene, digging the dancing queen♫. Pra matar, não? Mas foram os fãs dos Stones que saíram da casinha, trancaram a porta e jogaram a chave fora quando transformaram beast of burden em pizza burning. Pensa que tirar a letra é algo que se tira de letra?

 

 

Você pode nunca ter ouvido falar em Stevie Nicks. No entanto, uma horde de fãs sem ouvido musical cantava ♫just like the one-winged dove♪ em vez de ♪just like the white-winged dove♫. Isso é coisa de quem tem gênero forte. Ou será gênio forte? E responda sinceramente: você canta ♫rock the casbah, rock the casbah♪ ou ♪rock the catbox, rock the catbox♫? Shareef don´t like it! Nem um pouquinho!

Aliás, uma inteira geracão de surdos cantou ♫like a virgin, touched for the thirty-first time♪. Só que a Madonna cantava ♪like a virgin touched for the very first time♫. E olha que entre very first e thirty-first são trinta diferenças! Para todos os defeitos, quero dizer, efeitos, destroçamos a letra, mas cantamos com alegria! Porque na maioria das vezes, o que importa é a melodia. É ou não é?

E na canção Livin’ on a Prayer, do Bon Jovi, ♫it doesn’t make a difference if we make it or not♪, virou ♫it doesn’t make a difference if we’re naked or not♪. Ver o Bon Jovi pelado? Faz toda diferença! Até eu cantava assim! Qual é mesmo minha suspeita sobre o desejo influenciando o que escutamos? É que acreditamos que estamos certos mesmo quando estamos errados!

Por sinal, você faz parte daquela geração que foi controlada por dubladores com zumbido nos ouvidos? Aquela que cantou ♫Hatuna Matata♪ em vez de ♪Hakuna Matata♫? Você também não sabia que o certo é Hakuna? Mary Christmas! Isso, sim, é um crime cometido com frieza, um verdadeiro ice cream!

 

 

Ainda sobre leões, enquanto REM canta ♫that’s me in the corner♪, os fãs convidam ♪let’s pee in the corner♫! Enquanto uns cantam ♪fazer amor de madrugada, amor com jeito de pirata♫, o Kid Abelha canta ♫amor com jeito de virada♪! E ainda tem gente que acha que free shop significa chope de graça! É que pensamos que cantamos certo, mesmo quando cantamos errado.

Mas não se deixe abater se o cantor tem péssima dicção. Nem se o som dos instrumentos atrapalha sua compreensão. Acontece com todo mundo! E não fique constrangido se o que você entendeu estiver errado. Nem se provocar risos nos outros. Não dê ouvidos! Você não é o único! Siga se esforçando: você vai conseguir! Mas se o Creedence cantar ♫bad moon on the rise♪ e você entender ♪bathroom on the right♫, vou lhe dizer uma coisa ao pé do ouvido: quem sabe seja hora de procurar um otorrino!

 

Notas altamente esclarecedoras

  • Canções em inglês mencionadas no texto: The Lion Sleeps Tonight, Tokens, 1961; Purple Haze, Jimi Hendrix, 1967; Lucy In The Sky With Diamonds, The Beatles, 1967; Aquarius, Fifth Dimension, 1969; Bad Moon Rising, Creedence Clearwater Revival, 1969; Tiny Dancer, Elton John, 1971; Smoke On The Water, Deep Purple, 1972; I Can See Clearly Now, Johnny Nash, 1972; The Dancing Queen, ABBA, 1976; I Will Never Be Your Beast Of Burden, Rolling Stones, 1978; Just Like The White-Winged Dove, Stevie Nicks, 1981; Rock The Casbah, The Clash, 1982; Like A Virgin, Madonna, 1984; Livin’ On A Prayer, Bon Jovi, 1986; Losing My Religion, REM, 1991.
  • A canção The Lion Sleeps Tonight, também conhecida como Awimbawe, Wimoweh, ou Wimba Way, foi escrita em zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul em 1939, mas foi somente em 1961, quando foi adaptada para o inglês pela banda Tokens, que virou sucesso internacional.
  • Hakuna Matata é uma frase em suaíli, língua falada da África Oriental, e significa vida longa, sem problemas. A frase ficou famosa através do filme The Lion King.
  • Mondegreen é um erro de audição resultante de uma semelhança fonética entre a expressão dita e a expressão entendida, isso tudo em inglês. Quem se deu conta da sacada foi a escritora americana Sylvia Wright no seu artigo The Death of Lady Mondegreen, publicado em 1954. O título vem da má interpretação de laid him on the green (deitou-o na grama) na canção folclórica escocesa The Bonnie Earl O’Moray. Laid him on the green virou Lady Mondegreen! A série Rugrats apresenta vários mondegreens a cada episódio. E sirvam nossas lasanhas!
  • O equivalente de mondegreen em português do Brasil é virundum, originário de uma má interpretação do Hino Nacional Brasileiro: o virundum piranga imagens plásticas! E no português de Portugal é tiocidade, que surgiu quando um aluno interpretou incorretamente a letra de uma música que diz dentro de ti, ó cidade. Falou tiocidade!
  • http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_mondegreens
  • Já soramimi, muito explorado pela turma do programa Pânico, trata de mal-entendidos intencionais entre dois idiomas: no nosso caso, do inglês para o português. Como em Telma, eu não sou gay no lugar de tell me once again!
  • Exemplos de virunduns ou tiocidades no texto: Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles E Os Rollings Stones é uma canção italiana, de 1966, que ganhou versão brasileira em 1967 com Os Incríveis e outra em 1990 pelos Engenheiros do Hawaii; Vital E Sua Moto, Paralamas do Sucesso, 1983; A Noite Do Prazer, de Cláudio Zoli, 2006; Melô Do Marinheiro, Paralamas Do Sucesso, 1986; Pintura Íntima, Kid Abelha, 1984.

 

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Trabalho e diversão

Postado por @adim em 14/jun/2016 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*

O Primeiro de Maio ficou para trás, mas isso não significa que eu não possa falar daquele que nos ocupa, nos preocupa, e que, principalmente, nos dignifica. Aquele com quem brigamos para sair da cama todas as manhãs e, vá lá, a quem ameaçamos abandonar caso a Mega-Sena nos contemple. O bom e velho trabalho. Eu disse trabalho? Desculpe! Eu quis dizer work.

 

trabalho-diversao-02

 

Há vários tipos de work, dos mais nobres aos mais pobres: dirty work, por exemplo, significa trabalho sujo ou difícil. Muito diferente de artwork. E de patchwork. Que não tem nada a ver com teamwork. Ou com volunteer work. Muito menos com fireworks.

Como podemos perceber, sucesso não é o único que pode vir antes de trabalho. Ainda tem homework. E housework. Às vezes, porém, work vem antes. É o caso de workplace. E de workbook. Também de workshop, workmate e work market. Workaholic? Se você é feliz assim…

workout significa treino. O negócio é ter um workout plan. Sabe o uódi? Não é uódi que se diz. É WOD. Significa workout of the day. Qual é o seu tipo preferido: ab workout ou chest workout? Eu prefiro the best workout! É a solução para os problemas de saúde. Good work!

 

trabalho-diversao-01

 

Falando em problemas, work out também significa resolvê-los. Tipo work out an equation. Ou work out an answer. Encontrar a solução! Tem ainda work with me, que pode servir de convite. Mas também é o que dizemos quando alguém se faz de salame. Entendeu? Work with me! Ruim mesmo é out of work, que significa desempregado. O que não é nada divertido!

A propósito, que roupa você usa para trabalhar? Working clothes! Como se diz horas de trabalho? Working hours! E dia útil? Working day! Que tal classe trabalhadora? Working class! Sabe aquele almoço de trabalho? Working lunch! Mães que trabalham? Wonder Women! Work with me!

Aliás, aquele aplicativo novo que você baixou funciona? Diga it works! E se não funciona? It doesn’t work. Se faz maravilhas, diga it works wonders. Faz milagres? It works miracles! E se funciona como um reloginho, diga it runs like clockwork. Agora, se o seu salário não é lá essas coisas, constate: I work for peanuts! Lembre-se: quem trabalha de graça é relógio!

Por sinal, você anda trabalhando direto? Diga I’m working around the clock! Está trabalhando contra o tempo? Diga I’m working against the clock. Vai por mãos à obra? Get down to work! Trabalhar até cair? Work till you drop! Mas só se isso funciona com você. Nesse caso, diga it works for me. Quanto à Mega-Sena, it doesn’t work for me!

 

trabalho-diversao-03

 

Você tem o direito de querer subir na vida. Work your way up! Para isso você terá que conhecer as manhas, entender como as coisas funcionam: work the system. Quer simplesmente despachar alguém? Anuncie: I’ve got work to do! Essa desculpa works like a charm!

Se o trabalho é certo, não é trabalho. Certo? Certo mesmo é que little work never hurt anyone – nunca fez mal a ninguém. A menos que estejam tirando seu couro. Então, diga I work my fingers to the bone. Entendeu? Ralar até chegar no ossinho. Come on, work with me!

Além disso, você pode fazer como os Beatles e prometer: we can work it out! Sim, nós podemos fazer funcionar. Seja lá o que for. Ou você pode colocar a palavra work no nome de sua banda. Tipo Men at Work. Isso, lógico, se você estiver nos anos 80. Prefere testemunhar os desatinos de Alex em A Clockwork Orange? Sei, não! Melhor fazer como o Shrek e perguntar: are you working hard ou hardly working?

 

trabalho-diversao-04

 

Só não vale fazer essa pergunta para o seu chefe. Muito menos choramingar que está atolado de trabalho até as orelhas. Tipo I’m up to my ears in work. Também é arriscado declarar I’m working like a dog. Like a horse. E like a beaver. Ele pode concluir que seu workload não é lá essas coisas. E vai acabar achando que, além de precisar de um veterinário, você é a piece of work. Sabe o que significa? Mala sem alça! Cuidado para não ficar out of work!

Também não vale repetir quinhentas vezes all work and no play makes Jack a dull boy e sair dando machadadas nas pessoas. O contrário também não é nada bom: all play and no work! E afaste-se de pensamentos proféticos. Tipo the devil finds work for the idle hands. É como colocar um machado nas mãos de quem não tem nada para fazer.

 

 

Em vez disso, ocupe a mente, as mãos e, por que não, a alma com pensamentos mais leves. Comece dizendo all in a day’s work. Faz parte! E veja o lado bom da coisa: many hands make light work. Afinal, na união alguns não precisam fazer força. Desculpe! Eu quis dizer a união faz a força!

E para encerrar os trabalhos, gostaria de dizer só mais uma coisa. Você que põe mãos à obra e trabalha contra o tempo. Que rala e quer subir na vida. Que tem iniciativa, determinação e assume responsabilidades. Que busca conhecimento e trabalha por um mundo melhor. Enfim, você que faz do seu ofício também a sua diversão: keep up the great work!

 

trabalho-diversao-05

 

Notas altamente esclarecedoras

  • The Beatles gravaram We Can Work It Out em 1965.
  • Men at Work foi uma banda de rock australiana da década de 80.
  • A Clockwork Orange, Laranja Mecânica, é um filme de 1971, dirigido por Stanley Kubrick.
  • Shrek é um filme de animação computadorizada de 2001.
  • The Shining, O Iluminado em português, é um filme de terror psicológico de 1980, baseado no romance de Stephen King. A frase all work and no play makes Jack a dull boy pode ser traduzida por “muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um cara bobão”.
  • Confucius said: “Choose a job that you love and you will never have to work a day in your life”. Escolha um trabalho que ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida.

 

* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Pasta, Anyone?

Postado por @adim em 01/abr/2016 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*

Professora, como se diz pizza em inglês? Pizza! E como se diz fiasco em inglês? Fiasco! E replica? Replica! Professora, tu tá de brinqueichon uite me! Nada disso, caro aluno! É que pizza, fiasco e replica, assim como centenas de outras palavras italianas, foram incorporadas no léxico da língua inglesa. Sabe como isso aconteceu? Através dos imigrantes! E eles vieram de mala cheia! Capisci?

italian-american-flags

Por volta de 1870, a Itália enfrentava uma crise daquelas: PIB despencando, dólar subindo e inflação disparando. Tudo isso somado a uma corrupção desenfreada. Mi scusi! Acabei de descrever a crise no Brasil. Mas a realidade lá não era muito diferente: salários baixos e impostos elevados. Quer saber o season finale? Imigrantes italianos debandaram para la Merica. Ecco!

Apesar da maioria deles ter escolhido o Brasil e a Argentina antes disso, muitos partiram para os Estados Unidos, atraídos por melhores condições de emprego em áreas industrializadas. De 1820 até 1978, mais de 5.000.000 italianos que falavam aos berros tornaram-se ítalo-americanos que falavam aos berros. Bravo!

im_not_yelling_im_italian_drinking_glass

Só que os maledetti mal sabiam que teriam que sair no tapa com irlandeses e alemães, que já tinham se aboletado na terra do Tio Sam, a fim de disputar os trabalhos mais satisfatórios nas fábricas. Contudo, tanto os pinguços da Guinness quanto os da Hofbräu Original eram peixe pequeno perto da competição acirrada que estava por vir entre famílias asiáticas e russas sobre o crime organizado – maledizione!

A verdade é que a chegada de tantos imigrantes representou um grande desafio para o governo americano, principalmente pela sua reputação de anarquistas. Afinal, como confiar em quem cobre de plástico o sofá da sala? Como acreditar em quem consegue cozinhar para mais de 100 pessoas? Pior, como crer em quem fala com as mãos? Maledetti!

Muito foi feito para apagar o estereótipo de que italianos eram tutti mafiosi cujo objetivo era cruzar o oceano e dar fim à raça anglo-saxã. Mas o fato é que as imigrações impulsionaram o crescimento das organizações mafiosas, sim – mamma mia!

E assim cresceu o preconceito contra estrangeiros em geral, pois além de temer um estado anárquico institucionalizado, os americanos também temiam por seus empregos. Com tantos obstáculos no caminho para a felicidade, vários italianos preferiram trilhar o caminho do crime, construindo uma reputação que persiste até hoje. Ou você achava que os imigrantes eram tutti buona gente?

Al Capone, por exemplo! Ele possuía uma complexa rede criminosa que ficou ativa até 1931. E se você pensa que os mafiosi concentravam seus crimes apenas em Chicago, não se iluda: de New York até a California nenhuma barreira geográfica os detinha. Na verdade, nenhuma barreira. Ponto! Era como se o país inteiro estivesse dominado pelo elenco de The Godfather. Chamem o consigliere!

Nem mesmo a Lei Seca barrou os mafiosi, que dirigiam seus negócios ilícitos com cartas marcadas. Pelo contrário. A venda de bebidas alcoólicas por debaixo dos panos simplesmente triplicou. O contrabando e a produção clandestina popularizaram palavras como bootlegging e gang fighting Dio mio! Além de vários xingamentos. E badda-bing-badda-boom.

raf,750x1000,075,t,101010-01c5ca27c6

Todo esse movimento gerou um imenso impacto no idioma, e desde então a língua inglesa exibe várias palavras de origem italiana. Na política, ballot, fascism e ghetto enriquecem o vocabulário de qualquer um. Não sabe o que é ballot? É a cédula eleitoral. Não se esqueça de que a votação não é eletrônica nos Estados Unidos. Caspita!

Com relação a políticos ítalo-americanos vale citar Rudolph Giuliani (ex-prefeito de Nova York) e Geraldine Ferraro (primeira mulher a concorrer como candidata ao cargo de vice-presidente dos Estados Unidos em 1984). E sobre o escritor Nicoló Machiavelli veio a expressão Machiavellian. Maledetto!

Já a terminologia da música e da dança ecoa palavras como maestro, cello e opera. Já sei, você ouve essas palavras e fica pianinho, não? Perdão! Eu disse pianinho? Eu quis dizer pianissimo, adagio e allegretto. Alguns expoentes nessa área são Tony Bennett, Frank Sinatra e Liza Minnelli. E parli piano, per favore!

No cinema, brilham palavras como studio e cameo. Sabe o que significa cameo? É aquela pequena participação de um artista especialmente convidado para fazer uma ponta em um filme. E a lista de profissionais na arte cinematográfica é longa: Martin Scorsese, Al Pacino, Robert De Niro, Sylvester Stallone e John Travolta. Maledetti!

Tem também Joseph Barbera. Não tem a menor ideia de quem ele é? E se eu disser que ele trabalhou com o americano de origem escocesa William Hanna? Hello? Hanna Barbera! Você não teve infância? Maledetto!

As artes traçaram chiaroscuro, paparazzi e belvedere. O teatro ostentou imbroglio, burlesque e grotesque. Da literatura veio motto. Que significa slogan. Cada estado americano tem um. O de New York é Excelsior e o do Alaska é North to the Future. Procure você o motto dos outros 48 estados. Caspita!

Mas é pela mão da mamma, digo, da gastronomia italiana que o léxico do inglês engrossou. Literalmente, pois cappuccino, fettuccine, cannelloni, macaroni, spaghetti, panini e salami engrossam a circunferência abdominal de qualquer um – leave the gun, take the canoli!

italian

Com relação a vestuário, stiletto e umbrella desfilam elegância. E a geografia inseriu marina e riviera, além de lugares que foram batizados com os nomes dos exploradores: America por causa de Amerigo Vespucci e Colombia para honrar Christopher Columbus. Ou devo dizer Cristoforo Colombo? Maledetto!

O universo financeiro arrecadou bank, bankrupt e capitalism. O submundo do crime interceptou casino, mafia e vendetta. A religião abraçou christian, cross e confetti. O do carnaval!

Já a ciência importou belladona, malaria e medico. Algumas palavras tiveram sua origem nos nomes de cientistas. É o caso de Fermium, por causa de Enrico Fermi; Galvanic, de Luigi Galvani; e Volt, para honrar Alessandro Volta. Maledetti!

Nos esportes, ninguém vai esquecer Joe Dimaggio (jogador de baseball) e Rocky Marciano (campeão peso-pesado de boxe). Outras palavras que viajaram na bagagem dos imigrantes foram inferno, pronto e regatta.

Apesar das organizações mafiosas abrigarem outras nacionalidades, é nos italianos que pensamos quando falamos da Cosa Nostra, e mesmo que Al Capone fosse de longe o capo di tutti capi, ele não era o único. Adivinhe o que os seguintes nomes próprios têm em comum: Lucky Luciano, Donald The Wizard of Odds Angelini, Michael Dumdum Biancofiore, Paul Big Pauly Castellano, Jackie The Lackie Cerone, Salvatore Pizza Guy DeLaurentis, John No Nose Difonzo e Johnny Apes Monteleone.

Se você respondeu que são todos italianos, bingo! Acertou na mosca! Se você respondeu que são todos mafiosi, acertou novamente. Agora, se você está se perguntando como esses gangsters tocavam o terror com esses apelidos engraçados – e ridículos -, aí você me pegou! Caspita! Maledetto! Arrivederci!

Notes on the Note

  • Minha tradução de Pasta, Anyone? seria Alguém Aí Quer Macarrão?
  • Capisci significa entende; mi scusi é o equivalente de excuse me ou pardon me; maledetti é o equivalente de cursed; maledizione é o equivalente de curse ou damn it.
  • Consigliere (consiglieri no plural, equivalente de counselor) é o conselheiro do chefe da máfia, um amigo de confiança, que pode representá-lo em reuniões com outras famílias do crime organizado.
  • Lei Seca (Prohibition Era) foi uma lei federal que entrou em vigor nos Estados Unidos em 1920 proibindo a produção, transporte e comercialização de bebidas alcoólicas. Essa proibição foi um tiro no pé do governo americano, pois os mafiosos passaram a controlar a produção, transporte e comercialização de bebidas no mercado negro. Policiais e políticos corruptos ficaram nas mãos dos gangsters. O Congresso americano aboliu a Lei Seca em 1933.
  • Bootlegging descreve o contrabando de bebidas alcoólicas escondidas dentro dos canos das botas dos contrabandistas.
  • Badda-bing-badda-boom é uma expressão que remete ao barulho de tiros e explosões.
  • Caspita é uma interjeição que exprime surpresa.
  • Nicoló Machiavelli é considerado o fundador do pensamento político moderno.
  • Parli piano, per favore é o equivalente de speak slowly, please.
  • A dupla Hanna Barbera criou The Jetsons, The Flintstones, Tom & Jerry, e Yogi Bear, entre outros.
  • Cannoli siciliani (cannolo no singular e cannoli no plural) é uma sobremesa de massa doce frita em formato de tubo recheada com ricota ou mascarpone, baunilha, pistache, chocolate, frutas cristalizadas, vinho Marsala e limão siciliano. Leave the gun. Take the cannoli (Abaixe a arma, pegue o cannoli) é uma frase do filme The Godfather (O Poderoso Chefão), de 1972.
  • La Cosa Nostra é o nome das organizações criminosas da máfia.
  • Capo di tutti capi significa the boss of all bosses.

 

* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Do you speak Spanglish?

Postado por @adim em 07/jan/2016 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*

Se eu pudesse, levaria você aos Estados Unidos. Pela minha mão, você visitaria Boca Raton e, porque não, Las Vegas. Caminharia ao longo da Rodeo Drive. Chegaria bem perto da Sierra Nevada. Tiraria fotos de armadillos. Beberia vinho em alguma bodega. É quando você se pergunta: Estados Unidos? Isso está mais com cara de México! E você está certo! É que falar inglês pode ser mais fácil do que você pensa, se você souber um pouquinho de espanhol. ¿Comprende?

no-problemo

 

Eu disse “souber um pouquinho” e não ”inventar um pouquinho”. Afinal, não basta dizer pipueca con cueca cuela! Isso é o que nós, brasileiros, fazemos. Ou acrescentar um o ao final de cada palavra em inglês, tipo ¡no problem-o! Isso é o que os americanos fazem, incluindo exterminadores do futuro. Se nem o Brad Pitt conseguiu essa façanha, imagine você. ¿Right-o?

E sabe-se lá em quantas situações constrangedoras você vai se meter se suprimir ou acrescentar sílabas, ou, ainda, se inverter a ordem delas. Não vá confundir cuchara, que significa colher, com cucaracha, que significa barata. Tampouco faça como o hóspede que preencheu a ficha no hotel: ¿Nombre? José.¿Apellido? Zé. Você sabe que apellido não significa apelido, certo? É sobrenome! E jamais diga que estáembarazada, a não ser que esteja grávida. Caso contrário, ¡no way, Jose!

Outra cilada muito comum é repetir a última palavra de uma pergunta como se fosse uma resposta. Reza a lenda que o explorador espanhol olhou para o bicho e perguntou ao nativo: ¿cómo se llama? E o nativo, como que hipnotizado, ecoou: llama.  Ta-da!

tada-620x360

 

E muito cuidado ao supor que seu conhecimento de espanhol é melhor do que seu conhecimento de inglês. Principalmente se você for para um país dos Bálcãs, a Croácia, por exemplo, e no primeiro dia escutar na rua a seguinte frase dita por um turista espanhol: ¡La moneda es kuna! Pense bem antes de informar seu pessoal que a moeda local se chama escuna.

Também de nada adianta empinar uma garrafa inteira de tequila, ou vinte margaritas. Além de tomar uma bebedeira medonha, você só vai enrolar mais a língua. E nem pense em duplicar ou omitir palavras essenciais à estrutura da frase, como em ¡bang bang you dead! Isso não é inglês, muito menos espanhol. Isso é coisa de índio em filme sobre o velho Oeste! ¡Ay, ay, ay, caramba!

Falando em índio, os espanhóis foram os primeiros a pisar em solo americano depois que o explorador italiano descobriu a América. Somente na época do conquistador, cerca de 300.000 soldados, padres, don juans e borrachos espanhóis cruzaram o oceano – mi casa es su casa, eles provavelmente disseram para o cacique, segurando uma garrafa de amontillado. ¡Olé!

spanglish

 

Quando os primeiros imigrantes britânicos chegaram, surpreenderam-se ao encontrar um monte de colônias e missões espanholas. Só que os filhos de Cervantes, ocupados com a siesta, acabaram perdendo a guerra e, consequentemente, suas terras na Gringolandia, digo, no país que se chamariaUnited States of America. É o que dá ficar comendo muesca. Eu disse muesca? Perdão!

O fato é que a língua inglesa se apropriou de inúmeras palavras espanholas como cargo, hacienda eponcho. Os primeiros sinais de organização mafiosa vieram com as palavras guerrilla, cartel e marijuana. Quanto à gastronomia, os americanos herdaram coisas boas como jalapeño, guacamole, fajita, huevos rancheros e sangria, só para citar alguns. Prefere mojito e nachos? ¡Buen provecho!

Evidentemente, pipocam nomes próprios espanhóis em território americano. Pegue um mapa e comprove:Colorado, Montana, San Francisco, San Antonio. Já na cultura, para delírio dos aficionados, a nave espacial rebocadora do filme Alien se chama Nostromo, ou nuestro amo; o nome do navio negreiro no filme de Steven Spielberg é La Amistad, que de amizade não tem nada; e se você é fã do Batman sabe o que ele é: ¡vigilante!

Isso sem mencionar outras expressões popularizadas em filmes e séries. Jack Sparrow usa e abusa desavvy, que significa sabe usted. O cientista de Independence Day se refere ao alienígena capturado comotamale, que significa massa feita à base de milho.  Seja lá qual for a lógica dessa associação, lembro que o tal ET era um pueco grande. Será que é isso? Mas acho que pueco não existe. ¡Ay Dios mio!

Em Friends, há um episódio em que Joey é contratado para divulgar uma colônia masculina. Lembra do nome da tal colônia? ¡Hombre! E em outro episódio a Rachel pensa que tu madre es loca é um elogio. É que sempre tem um latino tentando passar a perna nos americanos para se vingar pelos papéis secundários! ¿Savvy?

Pois os latinos representam o segundo maior grupo étnico dos Estados Unidos, ficando atrás somente dos afro-americanos, apesar de algumas fontes afirmarem o contrário. Sentindo o bafo do Brasil na nuca, o México lidera os índices de imigração ilegal, principalmente para a California. Já a Florida, na costa Leste, é alvo de imigrantes cubanos. Além de tubarões. E de tornados. Por sinal, como é chamado um estrangeiro em situação ilegal? ¡Illegal alien! ¡Por supuesto!

Tem sido difícil para os hispanos vencerem preconceitos e serem aceitos na sociedade americana, principalmente depois que a Gripe Espanhola – trazida da Europa adivinha por quem? – matou mais de 500.000 americanos em 1918, com exceção dos Cullen, é claro. Vai mais mortaduela aí?

A verdade é que alguns deles trilharam caminhos de sucesso. Você conhece o Ramon Estevez? Ele é nada mais nada menos que Martin Sheen, pai do Charlie. E de Andres Arturo Garcia, já ouviu falar? Trata-se de Andy Garcia. Só sei que Gloria María Milagrosa Fajardo García de Estefan virou Gloria Estefan – o que de fato foi um milagro -, que Enrique Martín Morales virou Ricky Martin e que America Ferrera virou Ugly Betty!

Mesmo celebridades com nomes mais holiudianos não escondem sua origem: é o caso de Cameron Diaz (neta de cubanos, sí, sí, sí), Jennifer Lopez (filha de porto-riquenhos, pero que si, pero que no), Christina Aguilera (filha de pai equatorenho, siga la pelota). Mas nem só de Hollywood vivem os imigrantes hispânicos. ¡Viva Carlos Santana!

Aliás, deixe-me aproveitar essa chance para esclarecer: sabe o Babalú, o burrito companheiro do Pepe Legal? Pois Baba Looey é mexicano, mas Quick Draw McGraw é Americano. E ele sabe tanto espanhol quanto você e eu. ¡Fíjate, fíjate, fíjate!

Em resumo, os italianos descobriram a América, os espanhóis a conquistaram, mas foram os britânicos que colonizaram o país. E logo depois foram expulsos – ¡qué mala suerte! E os políticos americanos aprenderam algumas expressões em espanhol a fim de se dirigirem aos seus eleitores, tornando oSpanglish – ou Espanglês, algo semelhante ao nosso portunhol – a língua extraoficial do país. ¡Duela a quien duela!

 

Notas altamente esclarecedoras

Boca Raton é uma cidade na Flórida. Significa Thieves Inlet.

Las Vegas é uma cidade em Nevada. Significa The Meadows.

Armadillo é o mamífero conhecido por tatu, que caracteriza-se pela armadura que cobre o corpo. Significa little armored one.

Bodega significa adega.

No problem-o é uma referência a Arnold Schwarzenegger no filme Terminator 2: Judgment Day.

• Veja como o personagem de Brad Pitt no filme The Mexican pede carona a dois mexicanos em uma caminhonete: I need a lift in your el truck-o to the next town-o!

No way, Jose significa absolutely not, never.

• Tequila é o nome da cidade onde a bebida se originou.

• Margarita é um coquetel feito com tequila, sal, suco de limão e licor de laranja (Cointreau).

• Caramba é uma expressão de surpresa e espanto, eufemismo de carajo.

• Conquistador refere-se aos exploradores espanhóis da época das grandes navegações.

Amontillado é um vinho da região de Jerez, Espanha.

Mojito é diminutivo de mojado (molhado, húmido) e provavelmente refere-se às folhas de hortelã no drinque cubano.

Nachos é o apelido de Ignacio, o cara que inventou as famosas tortinhas de milho.

Buen provecho significa enjoy your meal.

• Vigilante significa watchman. Ser um vigilante é proteger o mundo do crime, mesmo sem permissão da policia.

• Edward Cullen é o personagem principal em The Twilight Saga. Ele escapou da morte pela Gripe Espanhola quando foi transformado em vampiro pelo médico que cuidava dele – desculpe, não resisti!

Ugly Betty é uma série de TV que descreve o dia a dia de Betty Suarez, uma secretária eficiente, mas feia, que trabalha para uma revista de moda.

Fíjate, fíjate, fíjate é um bordão da Chiquinha da série Chaves e foi traduzido por pois é, pois é, pois é.

 

* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Final de ano, go bananas

Postado por @adim em 03/dez/2015 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*

Ah, fim de ano! Tempo de sinos pequeninos e árvores decoradas! De festa com a turma do escritório. Com o pessoal do futebol. Amigo secreto! Comprar presentes! Enfrentar o trânsito! Bater as metas! Bater nas pessoas, isto é, abraçar as pessoas! Lojas lotadas! Ruas lotadas! Filas por todos os lados! Cale-se, cale-se, cale-se! Assim você me deixa louco!

chaves
E mesmo que você consiga evitar todos os transtornos que chegam quando o ano termina, e nesse caso você é feito de algum material verde e gosmento, aposto como não consegue fugir da decisão sobre o que fazer no fim do ano – acertei? Pois aqui vão algumas sugestões. Tenho certeza de que pelo menos uma delas se encaixará no seu perfil.

Que tipo de comemoração você quer para você e sua família? Vai ver você quer simplesmente go festive e entrar no espírito natalino. Ou, se preferir, go commercial e compre muitos presentes. Uma árvore de natal pequena? Go short! Quer convidar um monte de gente e dar uma festa de arromba? Go big. Já se você escolher um agito que dure até o sol raiar, diga go long.

Go digital se você optar por imagens no telão e tudo mais. Quer arrebentar na tecnologia? Go nuclear. Ougo modern para arrasar no décor. E go wild se quiser deixar sua imaginação voar. Quer mesmo é perder o controle? Não hesite e go hysterical.

Go commando se você estiver pensando em aderir a um estilo, digamos, minimalista e não usar roupa íntima. E go nuts se algum dos rapazes decidir go freeballing. Prefiro go sexy! E go traditional se escolher um visual bem caretinha. Nem pense em go French! Deixe isso para os franceses, verdadeiros profissionais na arte de não tomar banho e não feder. Eu disse não feder? Perdão! Errei!

Por sinal, sabe o que acontece com as comidinhas que ficam muito tempo fora da geladeira? Go sour. Ou diga go bad mesmo! Sabe o que acontece com espumantes abertos antes da hora? Go flat. Bebida choca? Ninguém merece! Prefere vinho tinto? Go red! Vai maneirar na bebida? Go soft! E nada de se empanturrar: go easy! Mas se quiser barbarizar na noite, então go hard!

Ainda, go caroling para cantar canções de natal. Ou go loud para festejar como os italianos. Você sabe como eles são barulhentos! E go colonial para comer cuca e tomar chope como os alemães. Se por acaso você visitar uma reserva indígena e adotar os costumes dos peles-vermelhas, diga go native. Mas go berserk para celebrar a Festa das Luzes como o Adam Sandler.

Go blind? Só se ficar cego de paixão! E go cute se preferir flores a TV de plasma. Ou go cheap! É só uma questão de ponto de vista. Vai enviar cartões para seus familiares e amigos? Então, go emotional. Ou compre uma dúzia de panetones e go sweet! Eu disse panetones? Perdão, eu quis dizer chocotones! E morra comendo!

Você tem medo de ficar careca? Bem, isso não acontece da noite para o dia, mas se você estiver quase lá, conforme-se e diga go bald! Go gaga? Mais cedo ou mais tarde todos nós ficaremos gagá. Acima de tudo,go crazy! Algo me diz que você vai enlouquecer se não enlouquecer neste fim de ano.

Go far se topar ir para bem longe daqui. Aproveite a oportunidade e go green. Aderir ao ecologicamente sustentável não tem erro! Também não deixe barato: go viral se decidir postar um vídeo da sua aventura. E cuidado com as finanças! Nada de go broke! Não vá ficar na miséria justo antes do ano novo. Sabe o que acontece com feriados não planejados? Go wrong!

Mas se você pertence ao grupo dos desorganizados, dos que não gostam de planejar nada, muito menos nesta época do ano, então go topsy-turvy e veja tudo ficar de pernas para o ar. E go postal se você é daqueles que perde a paciência facilmente. Mas nada de go violent. Chega de violência nesse mundo!

E atenção com as cores estampadas na sua cara: go blue só se for de frio e go green só se for de inveja. Ou se nenhuma dessas sugestões se encaixou no seu perfil. Nesse caso, volte a sua nave e diga ao seu líder: go home! Ou esqueça a gosma, entre no clima e faça como todos nós: go bananas!

Happy Holidays!

 

Notas altamente esclarecedoras

• Em inglês, os adjetivos podem vir após um verbo de ligação, e o verbo to go é um verbo de ligação. Nesse caso, to go + adjective significa tornar-se + o significado do adjetivo. Assim: go bananas(enlouquecer/ficar doidão), go festive (aderir ao clima festivo), go commercial (aderir ao estilo comercial),go short (preferir algo pequeno), go big (optar por algo grande), go long (durar), go digital (aderir à era digital), go nuclear (usar tecnologia nuclear), go modern (modernizar-se), go wild (agitar-se/enlouquecer/ir para cima), go hysterical (ficar histérico), go commando (estar sem roupa de baixo), go nuts (ficar maluco/pirar), go freeballing (estar sem cueca), go sexy (aderir ao estilo sexy), go traditional (aderir ao estilo tradicional), go French (fazer como os franceses), go sour (azedar), go bad (azedar/estragar), go flat(quando a bebida perde o gás/ficar choca), go red (especificamente no texto, preferir vinho tinto), go soft(pegar leve/ser muito mole com alguém), go easy (pegar leve/maneirar/evitar), go hard (ir com tudo/barbarizar), go caroling (cantar canções natalinas), go loud (aderir ao estilo barulhento), go colonial(aderir ao estilo colonial), go native (aderir aos costumes da população local), go berserk (o mesmo quego wild e go bananas, go blind (ficar cego), go cute (aderir a um estilo mais engraçadinho), go cheap(preferir o estilo econômico), go emotional (ficar emotivo), go sweet (optar por algo mais doce), go bald(ficar careca), go gaga (ficar gagá), go crazy (enlouquecer), go wrong (dar errado), go far (ir para longe),go green (aderir a um estilo ecologicamente sustentável), go viral (viralizar), go broke (ficar sem grana), go topsy-turvy (ficar de pernas para o ar/de cabeça para baixo), go postal (perder as estribeiras/ficar uma arara), go violent (ficar violento), go blue with cold (ficar azul de frio), go green with envy (ficar verde de inveja).

• A expressão go home não tem nada a ver com o padrão go + adjective, uma vez que home é um substantivo. O mesmo acontece com go freeballing e go caroling, onde go é seguido de particípio presente (-ing).

• Em vez de celebrar o Natal, os judeus celebram o Chanucá, também conhecido por Festa das Luzes.

• Adam Sandler is an American actor, film producer and musician. His family is Jewish, and descends from Russian immigrants on both sides.

* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

Paradoxos da língua inglesa: assobiar ou chupar cana

Postado por @adim em 05/nov/2015 - Sem Comentários

Por Cristina Ustárroz*
Já imaginou trabalhar lado a lado com alguém que diz não quando você diz sim? Que diz é pra amanhã quando você diz é pra já? Que diz sai pra lá quando você diz vem pra cá? Ou você cede, ou ele cede. Certo? E o que você pensaria de algumas expressões que colocam lado a lado justamente palavras com significados paradoxais? Quer um exemplo? Humildade argentina! Não tem outra: ou o cara é humilde, ou é argentino. Ou você assobia ou chupa cana.

paradox

Falando em nunca, nunca entendi muito bem o conceito de friendly fire. Pode um ataque que mata ou fere nossos aliados ser amigo? E o que diz o autor do disparo? Que foi calculated risk? Os living dead que respondam. O mesmo se aplica à fatally injured. Sendo fatally é muito mais do que uma simples ferida. A não ser que seja uma ferida que dói e não se sente. Sentiu?

Já sei: você é um militant peacemaker. E o que exatamente faz da vida um pacifista militante? Trabalha junto ao peaceforce brigando pela paz? Decida-se: ou você quer paz, ou você quer guerra. Aliás, o que significa civil war? Pois é! Estamos sempre queremos conciliar o inconciliável. Você é living ou é dead?

Quer outro exemplo? Sad smile! Tipo um contentamento descontente. Por falar em descontente, não se contente em ser permanent substitute. Second best? O mundo não está preparado para isso. Seja best! E ponto. Prefiro pouso forçado a crash landing. Ou écrash, ou é landing. Você não acha engraçado quando pedem uma original copy? Eu acho. Como se existisse fake copy. Copy é copy. Do you copy?
Vai mais um? Unbiased opinion. Sua opinião é sempre imparcial? A minha nunca é. E esse negócio de liquid gas, sei não! Gas é gas. Liquid é liquid. Você não cresceu cantandoThe Sound of Silence? Mais incoerente do que isso, só um silêncio ensurdecedor –deafening silence! Ou um honest thief! Você conhece algum? Dostoyevsky sim! Pode apostar! It´s a safe bet!


Nosso descompasso é tão grande que acabamos criando um cabo de guerra lingüístico. Juntamos duas palavras aparentemente antagônicas para expressar nossas discordâncias. Talvez isso explique o fato de estarmos sempre inventando conceitos contraditórios. Queremos a noite, mas não queremos a escuridão.
E para os apaixonados partir é doce tristeza. Se você concorda com Shakespeare digasweet sorrow. Só não confunda com sweet poison. Nem com bittersweet. Nada de tico-tico no fubá! Ou você come o bolo, ou ele fica na geladeira.
Perdoem meu parco conhecimento de física e de economia, mas sempre que leio a expressão constant variable penso em algo consistently inconsistent. E em regularly irregular. Sinto o mesmo sobre negative growth. Se é crescimento, como pode ser negativo?

paradox-3

Você sabe o que acho dessas expressões? Pois acho que elas esticam nossos braços. Nos pegam para Cristo. E também acho que são boringly fascinating. Ou fascinatingly boring. E que diabos significa free credit, afinal? Seja o que for, eu quero! É como explicar o inexplicável. Ou você vive o passado, ou você vive o presente.

A propósito, nossa vida é uma virtual reality com níveis de tragic comedy. E nos confortamos no nosso magical realism. Quem foi o ilustre desconhecido que inventou isso? De qualquer forma, você já viveu seu instante eterno hoje? Mas isso é science fiction. Queremos ter o bacon e dar coice em porco.

Como se mede um minor disaster? E limited freedom? Como pode conclusion ser initial? Aguarde, seus dados foram partially completed. Me avise quando less for more. Você sabe o que é controlled chaos? E organized mess? Viu? Queremos agradar gregos e troianos. Misturar água e óleo. Cuidar da dor que desatina sem doer.
Sente o corpo dormente? Pois acabe com essa numbing sensation: fique em casa e crie o seu próprio home office. E true lies o que é? Ou é verdade, ou é mentira. Sem essa de meias verdades! Ainda bem que não existe meio grávida. Isso é um open secret!

Por sinal, o seu copo está half-empty? O meu está sempre half-full. Ainda, se você quiser o pedaço maior da pizza, diga bigger half. Mas se é half como pode ser bigger? Ouempty? Ou full? Digam o que quiserem: sou otimista! Na verdade, sou positiva – same difference! Além de chupar cana, quero assobiar, comer bolo e tocar flauta ao mesmo tempo.
Seguidamente algumas expressões dizem o que querem e ouvem o que não querem. Sabe o lema da Microsoft? Microsoft works. Será uma enganação? E government organization.Mas isso é tipo amar a sogra! Perdão! Foi sem querer querendo! Dizem que business ethics é balela. Que airline food é ilusão. E que President Bush é pura enrolação! Ou você fica na cidade, ou você volta para o sertão.

O mesmo vale para happily married. Ou a pessoa é casada, ou é feliz. E vale para friendly divorce. É o que dizem! E nunca mais diga never again! Pois se é nunca, não pode ser mais. Nunca mais, viu?  É sua única opção. This is your only choice. Olha que ter opções nos dias de hoje é essential luxury. Irônico, não?

Você quer ver algo ainda mais irônico? Essas expressões são chamadas oxímoros, de ondeoxi (ὀξύς em grego) significa agudo/afiado/penetrante e moros (μωρός) significaidiota/tolo. Você pode até pensar que se trata de idiotice aguda! Só que não! E sobre o colega que diz não enquanto você diz sim, e antes de decretar zero tolerance, certifique-se de que ele não seja argentino. Ou de que você não tenha virado um.

Notas altamente esclarecedoras
·         Algumas palavras na língua portuguesa apresentam duas grafias, chamadas de formas gráficas variantes. Apesar de uma dessas formas ser mais utilizada pelos falantes, as duas estão corretas. É o caso de assoviar e assobiar.
·         Argentinian people: love you, guys!
·         Luís Vaz de Camões escreveu o soneto Amor é fogo que arde sem se ver.
·         The Sound of Silence é uma música de Simon & Garfunkel.
·          An Honest Thief é um conto de Fyodor Dostoyevsky.
·         Na peça Romeo and Juliet, de Shakespeare, Juliet diz: “parting is such sweet sorrow” (partir é tão doce tristeza).
·         O linguista britânico David Crystal cita bittersweet, boringly fascinating e fascinatingly boring. Confira em
http://www.davidcrystal.com/?id=3048
·         A frase ou você fica na cidade, ou volta para o sertão é inspirada na música Como Nossos Pais, de Belchior.
·        Oxímoro, oxymoron em inglês, é o nome desta figura de linguagem que une palavras de significados aparentemente contraditórios, mas que juntas fazem muito sentido, para provocar um determinado efeito (dramático, irônico, ácido ou mordaz). O plural deoxymoron é oxymorons ou oxymora.
* Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.