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Ficar de butuca

*Por Cristina Ustárroz

O passageiro ao seu lado chama: hospedeira de bordo! A moça se aproxima, e ele pergunta se a casa de banho está ocupada. Ela acena com a cabeça e acrescenta que a bicha está longa. Simpática, oferece uma chávena de chá – o que é um pouco arriscado numa hora dessas. Ele retribui a gentileza com um sorriso e diz que prefere uma bica. Pensando bem, também aceita um sandes com sumo. E informa que precisa usar o telemóvel antes da aterragem. Quando chegar a Francoforte terá aulas com um explicador. Aí você pergunta: meu deus, que língua é essa?

Pois esse é o português falado em Portugal. E não pense que é o português da época de Cabral. Esse é o português de agora, de José Saramago e de, vá lá, Cristiano Ronaldo! E você sabe em que países se fala português? Vamos ver: Angola, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau, Moçambique, e São Tome e Príncipe. Além do Brasil. De Portugal – óbvio! E de Macau. Calma, não vá aos arames! Sei que Macau não é um país. É apenas uma das regiões administrativas especiais da República da China. Hã? Português? Na China?

Fonte: iPhotoscrap

De qualquer modo, ficou estabelecido que as variações do Brasil e de Portugal são as principais, e todas as outras ficaram em segundo plano. Mas não podemos esquecer que mesmo dentro do Brasil e de Portugal encontraremos inúmeras variações regionais, ora poish!

Aqui no Brasil, por exemplo: você conhece jerimum? Já ouviu falar em macaxeira? Sabe o que é macambúzio? E mexerica? Pois bem, jerimum, palavra mais usada na Bahia, significa abóbora. Macaxeira, mais usada no norte e nordeste do país, é mandioca. Ou aipim. Macambúzio significa pensativo ou tristonho. Mexerica é bergamota. E não estou mangando de você!

Só que as variações não ficam restritas ao vocabulário. Há diferenças na gramática, na grafia e também na pronúncia. No Rio de Janeiro, elesh acendem a luish, goshtam de paish e amorr, e contam: um, doish, trêish….Durante a apuração dos votos das escolas de samba, o cara diz: Imperatrish Leopoldinense: déish! Não é?

Fonte: Mabulle 78

Por sinal, nossos vizinhos catarinenses contam de modo parecido: um, dosh, trêsh… Eu disse dosh? É! Dosh! Isso quando não dizem apenas do. Como em dorreal. Esse é o português do Brasil, visse? Não gostou? Azar do Valdemar!

O fato é que também há diferenças entre o espanhol falado na Espanha e o espanhol falado na América Latina, entre o Alemão da Alemanha e o alemão da Áustria ou da Suíça, entre o Francês da França e o francês de suas antigas colônias, entre o Italiano da Itália e o italiano falado aqui no sul do Brasil – va bene? Da mesma forma, há muitas diferenças entre o inglês americano e o inglês britânico. E o canadense, e o australiano, e o irlandês, e o… Peraí! Quantos são mesmo os países de língua inglesa?

Fonte: The Cultureur

Deixe-me ver: um, dois…sessenta e nove! Mais de 70 – se considerarmos países onde o inglês é lingua oficial e países onde o inglês é língua principal. Eu sei, um montão! Conhece Belize? E Gana? Sabe Malta? É por isso que vamos nos concentrar apenas nas diferenças entre o inglês dos Estados Unidos e o inglês do Reino Unido – que, aliás, de unidos eles não têm nada. Vamos descalçar esta bota, então?

Os americanos dirigem truck, mas os britânicos dirigem lorry (caminhão). Os americanos jogam soccer, enquanto que os britânicos jogam football. Os americanos usam pants, já os britânicos usam trousers (calças). Os americanos comem French fries, e o britânicos comem chips. Não pire na batatinha!

Nos Estados Unidos o povo anda de subway; no Reino Unido as pessoas pegam o underground (metrô).  Férias para os americanos é vacations, mas para os britânicos é holidays. Calçada para os americanos é sidewalk, e para os britânicos é pavement.

Quando os americanos fazem fila, eles dizem line. Já os britânicos dizem queue. Para os americanos gasolina é gas ou gasoline; para os britânicos é petrol. Lanterna é flashlight do lado de cá do Atlântico e torch do lado de lá. E outono, então? Para os americanos é fall; para os britânicos é autumn.

Com relação a diferenças na grafia: os americanos escrevem center. Os britânicos, centre. E metre. E theatre. Do lado de cá escreve-se color; do lado de lá, colour. E honour. E neighbour. Além de favourite. Os americanos escrevem catalog. E dialog. Os britânicos escrevem catalogue. Dialogue. E analogue. Programa de televisão? TV program para os americanos e TV programme para os britânicos.

Os americanos bebem draft beer (chope) e preferem organize, realize e recognize. Tudo com z! Já os britânicos tomam draught beere gostam de organise, realise e recognise. Com s! E viajante para os britânicos é traveller – com ll.

Fonte: Becks Beer Blog

Quer saber o porquê de tantas diferenças? Quando os Estados Unidos se tornaram independentes do Reino Unido, os americanos não queriam nada que lembrasse a coroa britânica. Ou aquilo que ela usa na cabeça. Na verdade, eles quase já não tinham mais nada em comum. Eu disse quase!

Para deixar bem claro que podiam caminhar com as próprias pernas, os americanos desenharam sua própria bandeira, conceberam seu hino nacional, elegeram a águia careca como símbolo do país, fundaram suas forças armadas, escreveram sua constituição e produziram sua unidade monetária. Enfim, essas coisinhas básicas para a construção da cultura e da identidade de um país.

A última fronteira rumo à liberdade era o idioma. Com o tempo, o inglês falado nas colônias da américa foi naturalmente se distanciando da lingua-mãe. Isso não aconteceu de propósito, mas alguém estava de butuca! Noah Webster – sim, o cara do dicionário – percebeu essa lacuna e oficializou a americanização da lingua inglesa escrevendo dicionários e gramáticas que salientaram todas essas diferenças.

Fonte:cup.linguistlist

Você percebe a importância de perceber? Muitas vezes nem é preciso criar algo novo para ser bem-sucedido. Basta prestar atenção. Enquanto Webster registrava as diferenças entre essas duas variedades de inglês, alguns anos depois, no Reino Unido, o escritor Oscar Wilde constatava: “temos tudo em comum com a América hoje em dia, exceto, é claro, a língua“.

Fonte: Kris Kesiak (Flickr)

Sei que não vai ser pera doce, mas preste atenção no inglês ao redor de você. Filme? Prestenção! Letra de música? Prestenção! Livro?  Prestenção! Inglês de sua professora? Prestenção! Preste atenção inclusive no inglês do Joel Santana – e não fale como ele! Garanto que ninguém vai dizer sobre você: meo deos, que língua é essa!

Fonte: Imagem para Facebook

Notas altamente esclarecedoras
• Expressões tipicamente portuguesas usadas ao longo do texto: ficar de butuca (estar esperto/prestar atenção), hospedeira de bordo (comissária de bordo), casa de banho (banheiro), bicha (fila), chávena (xícara), bica (café), sandes (sanduíche), sumo (suco), telemóvel (celular), aterragem (aterrissagem), Francoforte (Frankfurt), explicador (professor particular), ir aos arames (perder a calma), descalçar esta bota (resolver o problema), não ser pera doce (não vai ser fácil).
• A abreviatura de inglês americano é AmE, de inglês britânico é BrE e de português do Brasil é pt-BR. O português de Portugal também é chamado de português europeu ou português lusitano.
• Lusofonia/países lusófonos (países falantes de língua portuguesa) vs anglofonia/países anglófonos (países falantes da língua inglesa).
• A Guiné Equatorial ficou de fora do texto porque ninguém fala português por lá, ainda que seja uma das línguas oficiais.Um idioma pode ser oficial mesmo que não seja falado pela maioria das pessoas. Isso é muito comum em países que foram colonizados.
Meo deos é um exemplo do linguajar usado no Facebook.

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

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