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Entrevista :: Mindfulness e Psicoterapia

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Mindfulness, você sabe o que é? Conhecido também como Atenção Plena, se refere ao estar consciente da experiência presente, sem julgamento e de forma não reativa. O assunto surge como uma das principais inovações das Terapias Cognitivas de Terceira Onda. Há muitas evidências científicas dos benefícios da prática de Mindfulness, por isso o tema tem sido tão abordado nos últimos anos. O livro Mindfulness e Psicoterapia chega como uma ferramenta acessível a profissionais e estudantes que buscam compreender a técnica, considerada uma das que mais evoluem na área da psicoterapia hoje. Os autores, renomados especialistas, apresentam ao leitor os procedimentos para sua implementação, abordando, entre outros tópicos: psicologia budista, como a atenção plena pode aumentar a aceitação e a empatia, como incorporar a prática de mindfulness na terapia com crianças e seus cuidadores.

Conversamos com a revisora técnica, Melanie Ogliari Pereira,  Psiquiatra e Terapeuta Cognitiva com formação no Instituto Beck, Filadélfia, Pensilvânia.

Atualmente se fala muito em mindfulness, conceito também conhecido como atenção plena. De onde vem este termo?

Este termo tem origem no sanscrito – Pali Sati, que o Budismo vem utilizando há muitos séculos, e nada mais é, que um recurso, uma das técnicas de meditação que ele utiliza como uma forma de treinamento mental para autoregulação da atenção, nas emoções, pensamentos e sensações que estão ocorrendo no aqui e agora com o indivíduo. Foi traduzido para o português como Atenção Plena, Mente Aberta ou Consciência Plena.

Como a técnica é aplicada na psicoterapia?

A partir do final da década de 70 e início da década de 80 passou a ser utilizada inicialmente por um neurologista americano, John Kabat- Zin, em um programa pra redução de estresse na Universidade de Massachussets. Terapeutas cognitivos comportamentais, como Marsha Linehan e Steven Hayes, também colocaram em sua Terapia Dialética Comportamental e Terapia da Aceitação e Comprometimento técnicas de meditação e princípios do Budismo em suas abordagens, seguidos depois por outros autores.  Em 2005, o Dr. Aaron Beck e Dalai Lama tiveram um encontro no Congresso Mundial de Terapias Cognitivo Comportamentais, em Estocolmo, na Suécia. A aplicação de técnicas de meditação tomou força pela sistematização que ocorreu dentro da TCC e possibilitou, como em outros recursos que a TCC utiliza, uma comprovação de sua eficácia principalmente no tratamento de depressão e de transtorno de personalidade borderline e vem também se mostrando eficaz para ansiedade. Além disso, estudos de neuroimagem funcional que vem sendo realizados nos últimos dez anos tem demonstrado como meditação pode melhorar a qualidade de vida como um todo, independente de presença de patologias.

Como se pratica mindfulness?

Mindfulness é algo que se treina, alguns terapeutas vem se dedicando a um treinamento pessoal ou como profissionais, mas não é algo simples e que se adquire esta habilidade de uma hora para outra. Como tudo, exige persistência, repetição e disciplina. Independente de uma escolha por professar o budismo em suas mais variadas expressões ou yoga, as pessoas que mais tem conhecimento sobre esta técnica são com certeza as que se dedicam a elas.

Muito se diz que mindfulness é uma forma de meditação. A prática não se confunde com algumas religiões orientais?

Sim. Essa confusão é muito comum. Mas assim como podemos correr, e isto é saudável e auxilia na depressão, ansiedade, estresse, e não precisamos ser atletas de profissão ou ambicionarmos ser atletas. Podemos, com um acompanhamento profissional adequado, criarmos e treinarmos o hábito de correr. Vejo a utilização de meditação, mindfulness, da mesma forma.

É possível evoluir sem julgamentos, sem um “olhar próprio” sobre algo?

Podemos nos observar e observar fatos, emoções, condutas e aceitarmos diferentes leituras sobre um mesmo fenômeno sem nos obrigar ou obrigar ao outro a tomar nosso partido ou precisarmos ceder ao outro sem isso significar uma ruptura.  Mas não é algo fácil para nós desenvolvermos tal habilidade. No caso dos transtornos mentais e sofrimento psicológico é difícil muitas vezes aceitar que ele existe, que é um problema médico e nem negarmos a possibilidade da medicina ou a psicologia podem auxiliar e sem isso significar uma derrota ou defeito. Não escolhemos ficar doentes, escolhemos o que fazer com a doença que se expressa.

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