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BlogA Entrevista: pontos de vista impopulares de Cláudio de Moura Castro

Segundo o Censo do Ensino Superior 2012, as matrículas nas universidades dobraram no Brasil nos últimos 10 anos: de 3,5 milhões para 7 milhões de alunos. Os cursos a distância, por exemplo, já representam mais de 15% das matrículas de graduação. Tantas transformações não são exclusividade do Ensino Superior e a educação, em toda sua trajetória, carece de reflexões. O colunista da Revista Veja Cláudio de Moura Castro, economista, professor e pesquisador em educação, traz pontos de vista polêmicos sobre o tema em seu livro Os Tortuosos Caminhos da Educação Brasileira, lançamento da Penso Editora. Em conversa com o BlogA, ele conta algumas de suas principais conclusões sobre a educação do Brasil. Confira só:

Seu livro é caracterizado por seus pontos de vista impopulares. No entanto, é necessário trazer à tona as questões mais polêmicas para que haja debate e transformação na área da educação. Que tópicos o senhor destacaria?

Na ordem geral das coisas, podemos identificar dois grandes desastres. Há a educação inicial e a média, como a mães de todas as guerras a serem travadas. Se não aprendemos a ler e a escrever direito, tudo que vem depois está comprometido. E como demonstra o PISA e todos os testes brasileiros – muito bons, por sinal – o resto está irremediavelmente comprometido pela ruindade do ensino inicial. Conceitualmente, esse assunto é simples, é o feijão com arroz. Nós até sabemos como fazer: prova disso são os municípios pobres que têm educação de primeiro mundo. É também rápido, leva-se alguns anos apenas para fazer um grande reboliço. Por que quase nada acontece? Por que a sociedade continua tão comprometida com as belas palavras dos discursos e desmotivada para o esforço real exigido?

No Ensino Médio é diferente. No Fundamental, sabemos a solução e não sabemos/queremos implementar. No Médio, nem sequer temos clareza quanto ao que fazer. Cada país tem o seu sistema, são todos diferentes e ninguém está contente com o que tem. Na tropicália, o CNE está perdido, redige textos barrocos que nada dizem de pão-pão, queijo-queijo. Sabemos dos problemas: currículos enciclopédicos, ementas igualmente obesas, pouca – ou nada – de aplicação, só metade do tempo de aula é usado para aprender, assuntos distantes do mundo dos alunos, desconforto dos professores com a disciplina necessária em sala de aula e por aí afora.


Cláudio de Moura Castro é o autor de Os Tortuosos Caminhos da Educação Brasileira.
[FONTE: Educar para crescer]

A adoção do ensino médio politécnico (mais voltado à formação técnica e profissional) nas escolas públicas é um avanço ou um retrocesso? Por que?

É uma proposta de retrocesso, pois duvido que as secretarias embarquem em reconstruir o que nunca gostaram de fazer e nunca fizeram bem (RS é a possível exceção?). O ensino técnico ou profissional requer uma cabeça voltada para isso e mais as práticas e regras necessárias. É preciso estar próximo das empresas, aprender com elas, intercambiar professores e engenheiros. É preciso mecanismos para acabar com os cursos cujos mercados estão saturados e iniciar rapidamente atendimento a novos mercados. É preciso ter regras de contratação que valorizem quem sabe fazer e não quem tem diplomas. São precisos recursos para arcar com custos mais elevados. Nada disso existe nas secretarias, cuja história revela um DNA diferente.

O analfabetismo é um problema histórico no Brasil e, embora com a obrigatoriedade da escola básica para todas as crianças os números sejam menores, ainda há grandes índices do chamado analfabetismo funcional. Hoje, espera-se que a criança esteja alfabetizada até o terceiro ano, aumentando o prazo que antes se restringia ao primeiro. Esse tipo de atitude pode ser considerada uma “desistência” por parte dos educadores ou é uma adaptação à realidade brasileira?

O analfabetismo absoluto é um problema histórico no Brasil. Com a obrigatoriedade da escola básica para todas as crianças, muito poucos jovens são analfabetos absolutos. Porém, ainda os índices do chamado analfabetismo funcional são astronômicos. Sendo assim, o analfabetismo absoluto de pessoas com menos de 20 é residual e não merece maior atenção. São os desajustados, os doentes, os poucos que restam nos grotões. O analfabetismo absoluto de pessoas com mais de 40 anos é um fato imutável. Em sua vasta maioria, são pessoas ajustadas à sua vida e sem qualquer motivação para a experiência ameaçadora de voltar a bancos de escola. Nossa experiência com programas desse tipo é altamente negativa. O MOBRAL, de excelente organização, acabou tendo que recrutar alunos a partir de 14 anos, pois os mais velhos escasseavam. Com eles, nada a se fazer. Ainda menos, ser surpreendido pelos números dos Censos Demográficos e PNADs. Sabemos exatamente quantos serão na próxima edição desses levantamentos. É uma questão simples de projeção demográfica.

A lei falando de idade para alfabetizar é um detalhe técnico equivocado. Ninguém entendeu e não seria assunto para lei. Esqueçamos o analfabetismo absoluto. É uma relíquia do passado e a solução é o desaparecimento dos analfabetos pela lógica demográfica. Já o analfabetismo funcional é o epicentro dos problemas educacionais, como mencionado na resposta anterior. Na verdade, é o corolário da educação de má qualidade. Esse sim, é o problema que precisamos enfrentar.

Em lugares como o Brasil, é comum que a escola seja uma espécie de substituta aos pais, que trabalham o dia inteiro e têm pouco tempo com as crianças. Isso prejudica a relação de ensino entre professores e alunos? Como a escola deve lidar com essa responsabilidade a mais?

Entre outras funções, a escola é um “estacionamento de alunos”, praticamente em todo o mundo. Mais o país é rico, mais as mães trabalham, necessitando um lugar para deixar os filhos. A partir de certa idade, as escolas cumprem esse papel. Como começou a se falar, faz algumas décadas, o que interessa é o “quality time” dos pais. Por exemplo, nos Kibutz de Israel, as crianças passam mais tempo com uma “superbabá” do que com os pais. Mas sua identificação não é com elas e sim com os próprios pais biológicos. O que prejudica é menos a falta de tempo e mais o que acontece no pouco ou muito tempo que as crianças têm com os pais. Que valores os pais transmitem? Que imagem tem a escola na cabeça deles? Com que proximidade acompanham o avanço do aluno e cobram assiduidade e deveres feitos? Na sociedade brasileira, pouco comprometida com a educação, a resposta errada a essas perguntas é um problema e tanto.

“O que prejudica é menos a falta de tempo e mais o que acontece no pouco ou muito tempo que as crianças têm com os pais”
[FONTE: Evandro Veiga/Correio 24 horas]

Embora exista a obrigatoriedade de o governo oferecer educação gratuita para as crianças em idade escolar em local próximo às suas residências, sabemos que em locais mais ermos existem grandes obstáculos no caminho dos estudantes até a escola (desde obstáculos físicos, como longas estradas ou rios, até os socioeconômicos). De que forma o governo poderia intervir para mudar essa realidade? 

Todos os países avançados têm muitas escolas multisseriadas (várias series na mesma sala e um professor único) e o rendimento dos alunos em tais escolas não é inferior ao das convencionais. A Colômbia, com sua Escuela Nueva, desenvolveu técnicas apropriadas para lidar com escolas multisseriadas na América Latina. Em pequena escala, foram replicadas no Brasil. Pelo que se sabe, deram certo. Faz muito mais sentido preparar escolas e professores para um uso efetivo das técnicas de ensino multisseriado do que comprar ônibus. Na prática, o custo, por aluno, de um ônibus é mais ou menos o que custa operar uma escola simples. Se o custo operacional do ônibus fosse usado para melhorar o ensino, seria um grande negócio.

O processo de seleção para a entrada nas universidades públicas, o vestibular e, em alguns locais, o Exame Nacional do Ensino Médio, é um tipo de seleção que acaba beneficiando os que puderam pagar por sua instrução. Para tentar equilibrar o quadro, diversas universidades adotam o sistema de cotas. Acredita-se que essa seja uma solução temporária, mas de que forma poderia ser feita uma seleção mais justa?

O superior não é um nível obrigatório em nenhum país do mundo. Classicamente, é um nível em que os critérios meritocráticos prevalecem. Afinal, é de lá que devem sair os quadros mais refinados para a economia, a política, as artes e as ciências. Faz todo sentido aumentar a abrangência social de sua clientela, desde que os impactos sobre a qualidade dos alunos que entram não sejam graves. Afinal de contas, como demonstram pesquisas, 80% dos resultados no Provão/Enade resultam da qualidade dos alunos que entram. 

Obviamente, a única política que realmente tem sentido no longo prazo é melhorar a qualidade das escolas frequentadas pelos estratos mais modestos da sociedade. Faz também muito sentido preparar melhor os alunos da rede pública para os vestibulares. Como as universidades públicas são gratuitas e tendem a ser de boa qualidade, os alunos de famílias mais modestas têm sérias dificuldades de competir, sobretudo, nos cursos mais cobiçados. No caso dos privados, menos seletivos, há o impedimento financeiro. Contudo, o Prouni e o FIES são bons programa para isso. Ademais, os bônus de pontuação, originalmente criados na Unicamp revelam-se eficazes. Provavelmente, as cotas são a pior maneira de lidar com o problema. Enquanto são reduzidas, 12% como no seu início, há uma reserva de alunos bons, de escolas públicas. As cotas não trazem dano, e tampouco, grandes vantagens. Porém, quando a metade dos alunos entrar por cotas, a perda de qualidade em cursos como medicina pode vir a ser dramática. 

A grande vedete da vez é a educação à distância. Qual a sua opinião sobre esse modelo? Considera eficaz ou é um “tapar o sol com a peneira”?

Essa pergunta teria cabimento há meio século. Hoje, há ampla pesquisa e bons números. Aplicada corretamente, os resultados são, pelo menos, tão bons quanto os da educação presencial. Para ilustrar, tomemos uma situação extrema: um curso presencial medíocre e um EAD também fraco. No presencial ruim, o aluno passa 20 horas sentado, ouvindo o professor, cochilando ou no SMS. E nada mais. No EAD ruim, como a carga horária é a mesma, não há como preencher essas 20 horas com televisão. Ele tem que ler, escrever, preparar trabalhos práticos, resumos etc.

Para usar os termos tradicionais, no curso presencial, é ensino passivo. No EAD é ativo. E sabemos que o aprendizado ativo é muito melhor. Portanto, a distância é compensada por uma participação muito mais intensa do aluno. Mas, obviamente, nem todos os alunos têm a disciplina de trabalho requerida pelo ensino à distância. Daí que as taxas de deserção tendem a ser mais elevadas. Mas isso não deve preocupar, pois pouco se perde no processo de testar o perfil do aluno. Se não der certo, ele se vai, sem maiores perdas para qualquer dos lados.

Além da versão impressa, a obra também está disponível em e-book.

Para quem quer saber mais sobre o livro Os Tortuosos Caminhos da Educação Brasileira, fizemos um post com trechos selecionados da obra. Aproveite e compartilhe sua opinião com a gente, porque o debate é essencial para a área da educação. 😉 

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