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BlogA Entrevista: Alessandra Diehl e Neliana Buzi Figlie

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O uso excessivo de álcool e drogas é um problema sério na sociedade, pois prejudica o desenvolvimento de jovens, desestrutura famílias e isola o indivíduo de seu meio. O tratamento para o alcoolismo ou para a dependência química são procedimentos lentos e dolorosos, tanto para o usuário quanto para sua família e seu círculo social. Nem sempre, no entanto, são bem sucedidos. Por isso, a prevenção é essencial para que os problemas causados pelo uso de substâncias sejam eliminados antes mesmo de surgirem. O livro Prevenção ao Uso de Álcool e Drogas – O que cada um de nós pode e deve fazer? ataca a raiz do problema, discutindo possibilidades de prevenção junto a crianças, adolescentes e adultos e discutindo mitos e verdades sobre o tema. As autoras da obra, Alessandra Diehl e Neliana Buzi Figlie concederam uma entrevista esclarecedora ao BlogA sobre as questões que envolvem o alcoolismo e a dependência química. Confira!

Onde está o limite entre beber socialmente e alcoolismo?

Alessandra: Beber socialmente não está atrelado à necessidade premente de consumo: ocorre em episódios isolados, sem prejuízos sociais, familiares, laborais e físicos, e em um contexto de degustação do álcool. Já o alcoolismo, ou a síndrome de dependência ao álcool, como é chamado cientificamente, em geral tem uma instalação insidiosa e está atrelado a uma série de sinais e sintomas que tornam o consumo de bebidas alcoólicas muito prejudicial, tanto para a pessoa que consome quanto para o seu entorno familiar e social. Entre esses sinais está o extremo desejo de consumir bebidas alcoólicas, com necessidade e frequência cada vez maiores. Quando o indivíduo tenta parar de consumir, sente extremo desconforto físico, com náuseas, vômitos, tremores de membros superiores, sudorese, angústia, dificuldade para conciliar o sono e irritabilidade, o que faz com o que ele retome o uso. Tudo isso se torna uma grande bola de neve, e o indivíduo pode passar a negligenciar seu autocuidado, ficando mais agressivo ou distante nos cuidados com os filhos, por exemplo, e tendo outros prejuízos nas diversas esferas de sua vida.

Quais são as dicas que vocês dariam para os pais a respeito da prevenção ao uso de drogas e álcool?

Neliana: Atuando de modo a desenvolver a consciência crítica frente ao uso e trabalhando muito com análise de custo e beneficio, ou seja, expôr ao filho o que ele ganha e o que ele perde com o consumo de substâncias tóxicas, seja na área familiar ou escolar e em relação à saúde e à convivência social, entre outras. Um exemplo clássico é a fala do adolescente: “mas todo mundo usa”. Discutir com o jovem dados de levantamentos epidemiológicos em nossa população, como, por exemplo, o fato de quase 50% da população brasileira ser considerada abstemia ou a informação de que, em geral,  2% dos adolescentes brasileiros usam THC. Dados como esses já mostram que não é a maioria da população que usa essas substâncias, e isso nos dá argumentos para refletir sobre as amizades com as quais o jovem pode estar se envolvendo.

O uso de substâncias é algo presente em nossa vida – muitas vezes, dentro de casa –  e a decisão consciente e embasada em dados de realidade é a melhor alternativa. Quando falamos de prevenção, geralmente as pessoas associam com maconha, cocaína e crack. Mas se esquecem de substâncias que estão muito próximas ou dentro de casa, como álcool, cigarro, medicamentos, solventes e energéticos, que também são consideradas drogas de abuso.

Estabelecer uma relação de confiança é vital para que o diálogo possa acontecer. Lembrando que os pais estão na posição daqueles que precisam colocar limites. Um pai pode ser um amigo, mas um amigo nunca será um pai. Logo, antes de serem amigos, os pais precisam exercer o papel que lhes compete.

Como deve agir um jovem que percebe que um de seus amigos está abusando de álcool ou drogas?

Neliana: Primeiro e básico: falar! Falar sem medo de ser careta ou moralista. Estudos mostram que a influência dos pares (iguais no grupo) é poderosa para fazer com que o usuário se dê conta de sua situação.

Mas aqui também seguem outras dicas:

– dar informações sobre riscos;

– mostrar preocupação;

– se ele mentir, mostrar que percebe;

– saber ouvir;

– não acusar;

– procurar a melhor hora de conversar (não discutir sob efeito da substância); e

– identificar as áreas-problema.

Por fim, se você está disposto a ajudá-lo, é importante mostrar que o aceita como ele é, o que é uma demonstração sincera de afeto e amizade. No entanto, é importante estar atento aos seus limites: existem situações em que é necessário ajuda especializada.

Um verdadeiro amigo sabe estar presente, compreender, dar apoio, mas também estabelece limites, reconhece dificuldades e aponta caminhos para que a pessoa encontre as saídas.


Uma dica importante para os pais: para conscientizar seus filhos, utilize dados de pesquisa e mostre que o “todo mundo usa” não é tão verídico assim.
[Fonte: Saúde infantil]

De que forma se dá a prevenção com relação ao uso de drogas entre jovens e adolescentes?

Neliana: A prevenção deve ter como meta diminuir ou evitar os problemas causados pelas substâncias antes que eles surjam, oferecendo possibilidades de mudança efetivas na comunidade, ao estimular comportamentos e hábitos saudáveis. A prevenção promove a saúde e seu alcance é ampliado quando está alinhada a políticas públicas e utiliza estratégias redutoras de danos, uma vez que o público alvo desse tipo de intervenção não apresenta diagnóstico de síndrome da dependência de substâncias.

Uma estratégia preventiva conscientiza o público alvo, enfatizando a autoestima e a autoconfiança, trabalhando habilidades de resolução de problemas e necessidades definidas no contexto sóciocultural e contando com mobilização de recursos comunitários e redes sociais. Apesar de a decisão de experimentar uma substância psicoativas ser geralmente uma questão pessoal, com a exposição ao uso repetitivo, desenvolve-se a dependência, que é resultado de uma combinação complexa de fatores genéticos, fisiológicos e ambientais.

É muito difícil apontar exatamente quando uma pessoa se torna dependente de uma substância, independentemente do seu status legal. Há evidências de que a dependência não é um fenômeno claramente demarcado, mas que ela se desenvolve ao longo de um continuum que vai desde problemas iniciais, sem dependência significativa, até dependência grave, com consequências físicas, mentais e socioeconômicas.

O que é importante ressaltar é que o uso nocivo ou abusivo de drogas, por uma pessoa ou por um grupo, raramente é causado por um único fator. Trata-se da interação entre um grande número de condições e fatores individuais, sociais e ambientais, que colocam as pessoas em risco ou em proteção e que vão variar de comunidade para comunidade e de pessoa para pessoa. Nesse contexto, além de avaliar os fatores de risco e de proteção, se faz necessário avaliar as principais áreas da vida da pessoa (individual, pares, familiar, escolar, comunitário e sociedade) nas quais os fatores, sejam de risco ou de proteção, existirão. 

Quais são os sinais de que a ingestão de álcool está se tornando abusiva?

Alessandra: Antes de responder essa pergunta propriamente dita, gostaria de lembrar que a ingestão de bebida alcoólica não é recomendada para crianças e adolescentes e, quanto mais tardia for a iniciação no consumo de álcool, menores são as chances de surgirem problemas em decorrência desse uso. Também vale lembrar que o cérebro humano só está completamente amadurecido aos 25 anos de idade. Portanto, o consumo de álcool em tenra idade pode significar dano cerebral precoce. Assim, recomenda-se a ingestão de bebidas alcoólicas apenas ao indivíduo em fase adulta e em um contexto de celebração, degustação e brinde. Um cenário bem diferente do imaginário popular, que define o álcool como parte integrante das refeições, como um alimento ou tão necessário quanto. O uso abusivo pode ser identificado quando a frequência do consumo for aumentando ao longo da semana e, sobretudo, quando surgem prejuízos associados ao esse consumo, tais como a ausência no trabalho, beber e dirigir intoxicado e colidir o carro, piora de quadros clínicos preexistentes – como hipertensão arterial sistêmica ou diabetes – por conta do consumo de bebidas alcoólicas e ficar intoxicado a ponto de se expor ao sexo desprotegido.

Onde buscar ajuda para deixar a dependência?

Alessandra: A ajuda pode ser encontrada em centros de atenção psicossocial em álcool e drogas (CAPS-AD), psicólogos, psiquiatras e conselheiros especializados nessa área de atuação e ambulatórios de saúde  mental e também por meio de grupos de mútua ajuda, como o  Alcóolicos Anônimos ( AA), e para familiares, como o Amor Exigente, o Alanon e o Alateen. A internação está, em geral, reservada para casos que não tiveram sucesso com o tratamento ambulatorial ou para situações de alta vulnerabilidade social e psíquica.


Beber socialmente, especialmente em celebrações, é diferente de dependência química. Saiba identificar o comportamento abusivo.  
[Fonte: Saint Louis College of Pharmacy]

Como as políticas públicas podem ajudar na promoção da prevenção ao uso de álcool, tabaco e outras drogas?

Alessandra: As políticas públicas têm um papel importantíssimo na medida em que são ações que visam a somar estratégias de ambiente principalmente universal, integrando-se a outras praticas igualmente necessárias para que a prevenção, de fato, aconteça. Em outras palavras, podemos dizer que as políticas públicas englobam macrorresponsabilidades, tais como as de traçar leis que regulamentam a venda, o consumo e a publicidade de álcool e tabaco nos países (sobretudo fiscalizar as leis e normativas existentes), as de implementar o acesso a atividades de promoção de saúde e de integração com as escolas e oportunizar a habitação e o lazer necessários ao desenvolvimento saudável de crianças, adolescentes e suas famílias, bem como oferecer tratamento para populações que já adoeceram por conta do consumo de substâncias psicoativas.

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